Eduardo Sartorato
Depois da derrota e eliminação de mais uma Copa do Mundo, torcida e analistas brasileiros começaram a tradicional busca por um culpado pelo fracasso da seleção. O time foi derrotado pela Noruega por 2 a 1 neste domingo (6/7), jogo válido pelas oitavas de finais do torneio. O argumento mais utilizado tem sido o início ruim do ciclo da seleção, desde a eliminação na última Copa, em 2022, quando o Brasil perdeu para a Croácia nos pênaltis, nas quartas de finais.
Todo o período de três anos e meio que separara as duas derrotas foi cheio de erros e instabilidades. Isso ocorreu tanto na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), quanto nas comissões técnicas que comandaram a equipe. Entre 2022 e 2026, a presidência da entidade ficou marcada pelas idas e vindas do ex-presidente Ednaldo Rodrigues, por irregularidades na gestão, e a eleição de Samir Xaud, atual mandatário. Neste período, passaram pelo comando técnico da seleção cinco treinadores – Tite (que deixou a seleção após a Copa 2022), Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e o atual, o italiano Carlo Ancelotti.
Contratação de Ancelotti trouxe esperança
O início de um ciclo ruim, com planejamento equivocado, ou mal executado, de fato, normalmente, basta para justificar um insucesso dentro de uma competição tão difícil e disputada como a Copa da Mundo. O problema do Brasil, porém, vai além. A contratação de Ancelotti para o comando técnico do Brasil, em 12 de maio de 2025, trouxe a sensação de que a seleção cessaria os erros e que, a partir dali, conseguiria entrar nos trilhos, e isso não aconteceu. Com Ancelotti, o Brasil continuou tropeçando nas falhas que havia tendo desde a derrota no Catar.
Talvez não seja inteiramente justo com o técnico italiano colocá-lo como culpado em relação ao entrosamento da equipe. Numa seleção que pouco se reúne, um ano é pouca coisa para dar ritmo a um time itinerante. Ancelotti, porém, demorou muito para encontrar a escalação titular (se é que encontrou), e chegou à Copa com um grupo ainda em construção. Copa é um tiro curto, sendo praticamente impossível formar uma equipe dentro da competição.
Brasil teve convocação equivocada
A convocação dos 26 jogadores também foi equivocada, com apostas questionáveis e medalhões que pouco mostraram em campo. O exemplo maior é a convocação de Neymar, que vem tendo uma temporada muito abaixo da média no Santos. Ele não apareceu em nenhuma lista de Ancelotti antes do chamamento final para a Copa do Mundo.
A impressão que o italiano passou a todos é que, diante de um clamor inocente de grande parte da torcida, que tem em seu imaginário o Neymar craque que surgiu no Santos e fez brilhante carreira no Barcelona, a convocação do jogador foi uma espécie de seguro – em caso de derrota, ninguém poderia culpá-lo de não o ter levado. No caso de um fracasso sem ele, o coro e críticas contra o italiano, por não tê-lo chamado, seria bem maior.
Além de tudo, Neymar está voltando de uma lesão e, naturalmente, está fisicamente abaixo do ideal. Como era esperado, a sua entrada no jogo contra a Noruega fez o time perder velocidade e efetividade no ataque. A partir daí, a Noruega aumentou seus espaços e conseguiu encontrar os gols na efetividade de Erling Haaland.
Não há um culpado único
É claro, porém, que Neymar também não é o único culpado da derrota brasileira. Nem mesmo Bruno Guimarães, que perdeu o pênalti na etapa inicial, que colocaria a seleção num patamar especial dentro daquela partida, de poder jogar nos contra-ataques, enquanto a Noruega teria que se expor mais.
Também não é apenas de Endrick, que errou um gol feito assim que entrou no jogo, no início do segundo tempo. Aliás, outro erro de Ancelotti foi apostar num garoto de 18 anos como alguém que pudesse ser a salvação da equipe no segundo tempo de um jogo de Copa do Mundo. Endrick mostra talento que será, ao que tudo indica, muito importante para o Brasil no futuro. Ele, contudo, precisa de tempo para amadurecer e dificilmente seria o fiel da balança já nesta Copa.
Brasil tem lacunas em várias posições
Neste momento, é importante fazer uma análise e autocrítica também sobre a qualidade humana que a seleção brasileira tem à disposição. Historicamente acostumado a ter três ou quatro times prontos para disputarem uma Copa do Mundo, hoje o Brasil sofre para formar um. Em algumas posições, como gol e laterais, não possui sequer um jogador que seja de qualidade inquestionável, como ocorria no passado.
Desta forma, não se deve procurar apenas um culpado para mais uma derrota do Brasil em Copa. Nem mesmo o início conturbado do ciclo foi o único problema, já que os erros não pararam com a chegada de Ancelotti. São muitos os pontos que contribuíram para o fracasso e a reconstrução da equipe precisa ser, da mesma forma, profunda.


