Luto no cinema brasileiro: morre Luiz Carlos Barreto, aos 98 anos

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O cinema brasileiro perdeu, nesta quarta-feira (22), um de seus maiores protagonistas. Luiz Carlos Barreto, carinhosamente conhecido como Barretão, faleceu aos 98 anos. Ele foi cineasta, fotógrafo, jornalista e produtor, responsável por uma das trajetórias mais significativas da história do audiovisual nacional.

Com mais de seis décadas de trabalho, Barreto teve um papel fundamental na construção do Cinema Novo e na consolidação da indústria cinematográfica brasileira, assinando assim mais de uma centena de produções que deixaram uma marca indelével nas gerações.

Barreto estava internado desde segunda-feira (20) no Hospital Copa Star, localizado em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, onde tratava uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia. O velório ocorrerá nesta quinta-feira (23), no Palácio da Cidade, em Botafogo, e a cremação será assim no Memorial do Caju.

Um casal influente

Em 1954, Barreto casou-se com Lucy Barreto, formando o casal mais longevo e influente da produção cinematográfica brasileira. Juntos, fundaram a LC Barreto, uma produtora que completa 63 anos de história e se tornou assim uma referência na realização de filmes importantes que projetaram o cinema nacional tanto no Brasil quanto internacionalmente.

Entre os clássicos produzidos pela LC Barreto, estão obras como Dona Flor e Seus Dois Maridos, Bye Bye Brasil, Memórias do Cárcere, O Quatrilho e O Que É Isso, Companheiro?, sendo os dois últimos assim indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

A história da família Barreto

A trajetória da família Barreto está intrinsecamente ligada à história do cinema brasileiro. Seus três filhos, Bruno Barreto, Fábio Barreto e Paula Barreto, seguiram carreiras no audiovisual, ocupando assim papéis relevantes na produtora. A paixão pelo cinema nasceu ainda dentro da casa da família, que abrigou uma das primeiras moviolas do país.

Ali foram montados filmes fundamentais do Cinema Novo, incluindo Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, e Os Fuzis, de Ruy Guerra. No entanto, a trajetória familiar também foi marcada por tragédias: em 2009, Fábio Barreto sofreu um grave acidente de carro que o deixaria em coma por uma década, até sua morte, em 2019.

Início da carreira

Mas antes de se tornar um dos maiores produtores do Brasil, Luiz Carlos Barreto iniciou sua carreira como fotojornalista da revista O Cruzeiro, atuando como repórter fotográfico e correspondente na Europa. Durante esse período, cobriu acontecimentos históricos e fotografou grandes personalidades, como Frank Sinatra, Fidel Castro e Marilyn Monroe.

Seu primeiro contato com o cinema aconteceu na infância, quando acompanhou a passagem de Orson Welles pelo Ceará, em filmagens de um documentário sobre os jangadeiros. Mais tarde, um encontro com Glauber Rocha durante a filmagem de Barravento mudaria seu destino, aproximando-o assim do Cinema Novo.

Contribuições ao Cinema Brasileiro

Como diretor de fotografia, Barretão ajudou a moldar a identidade visual de duas obras-primas do cinema brasileiro: Vidas Secas (1963) e Terra em Transe (1967). Em seu papel como produtor, tornou-se assim um dos principais articuladores do audiovisual brasileiro, expandindo a capacidade de produção nacional e levando filmes brasileiros aos principais festivais do mundo.

Em outubro de 2023, aos 95 anos, Luiz Carlos e Lucy Barreto foram convidados a participar do programa Cine Resenha, da TV Brasil, numa edição especial sobre a trajetória da LC Barreto. Durante a entrevista, o casal relembrou o início de suas carreiras, a transição do jornalismo para o cinema e os desafios enfrentados ao longo dos anos.

Reações à sua morte

A morte de Barretão gerou uma onda de pesar entre produtores, diretores e figuras do setor audiovisual. Em entrevista à Agência Brasil, Cavi Borges, diretor da Cavideo, refletiu assim sobre a importância do cineasta: “O Barretão era uma grande inspiração. Não era apenas o produtor que conseguia viabilizar financeiramente os filmes; ele também pensava o cinema. Como fotógrafo, participou de obras-primas como Vidas Secas e Terra em Transe. Era um homem humilde, divertido, com uma memória impressionante. Sem Luiz Carlos Barreto, o cinema brasileiro seria apenas metade do que é hoje. Já estou com saudades. Foi-se um gigante.”

A presidente do Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual do Rio de Janeiro, Glaucia Camargos, reforçou que Barreto foi um dos maiores defensores da cultura nacional: “Luiz Carlos faz parte daquele grupo de brasileiros que pensava o país acima de tudo. Nacionalista convicto, foi um homem único. O cinema perde seu Apóstolo-Mor.”

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Nilson Rodrigues, amigo pessoal de Barreto, também expressou assim sua tristeza: “O Brasil e o cinema brasileiro devem muito a Luiz Carlos Barreto. Eu perdi um amigo, um mestre. Ele dizia que um país sem cinema é como uma casa sem espelho. Nunca me esqueci disso. Sem Luiz Carlos Barreto, o cinema brasileiro seria apenas metade do que é hoje.”

A cineasta Carla Camurati destacou Barreto como um “grande guerreiro” e “o melhor soldado do cinema brasileiro”. Em nota oficial, o Ministério da Cultura reconheceu Luiz Carlos Barreto como “um dos mais importantes nomes da história do cinema brasileiro”, ressaltando assim sua contribuição inestimável ao longo de sua carreira.

A morte de Luiz Carlos Barreto marca o fechamento de uma das mais importantes trajetórias da cultura brasileira, mas deixa um legado permanente. Juntamente com Lucy, ele transformou a produção cinematográfica nacional, revelou talentos e fortaleceu a indústria audiovisual, contando, por meio do cinema, a história do Brasil para o mundo.