Marrocos é culpado pela crise imigratória em Ceuta?

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Especialistas em relações internacionais divergem sobre o papel de Marrocos na crise imigratória em Ceuta, cidade espanhola localizada em território africano, que recebeu uma onda de mais de 50 mil imigrantes nos últimos dias, resultando em cerca de 100 mortos.

O professor de História da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nuno Carlos de Fragoso Vidal, afirma que uma imigração em massa, como a que se observa em direção a Ceuta, não ocorreria sem a anuência do governo marroquino.

O acadêmico angolano destacou que o governo espanhol tem se aproximado de grupos da esquerda que apoiam a independência do Saara Ocidental. Este é um território ocupado por Marrocos e reivindicado pela Frente Polisário, grupo respaldado pela vizinha Argélia. “O rei de Marrocos [Mohammed VI] chateia-se com esse apoio e resolve retaliar. Certamente, aquela imigração em massa teve a anuência das autoridades marroquinas. Muito provavelmente por conta da Frente Polisário, que é amplamente apoiada por forças de extrema esquerda da Europa”, disse.

Controle Territorial

O especialista em Europa e ex-senador pela Itália, José Luís Del Roio, ressalta que o governo marroquino tem um controle rigoroso sobre seu território. Ele conta que funciona quase como um Estado policial, e poderia bloquear a movimentação de grandes grupos de pessoas.

“Não é possível que deixem 80 mil jovens saírem correndo e não façam nada. Se não fazem nada, é porque não quiseram fazer. O sistema marroquino é bastante rigoroso no controle territorial. Portanto, há conivência, sim, do governo marroquino”, afirmou.

Para o analista de geopolítica Del Roio, a imigração em massa foi um “evento programado por forças poderosas”, e suspeita-se que Israel esteja por trás. “Primeiro, porque tem a capacidade de fazer isso, e porque Israel está furioso com a posição da Espanha em relação a Gaza e Cisjordânia”, completou.

A Juventude em Busca de Esperanças

Por outro lado, o professor marroquino de relações internacionais Mohammed Nadir, da Universidade Federal do ABC (UFABC), enfatizou à Agência Brasil que não há indícios do envolvimento de Marrocos na crise migratória.

Nadir lembra que o governo Sánchez reconheceu o projeto de Marrocos para o Saara Ocidental em 2022. Isso, segundo ele, teria reduzido as hostilidades do país africano em relação ao governo espanhol. Durante uma visita a Marrocos no auge da crise, o professor observou que a situação reflete a falta de perspectivas para a juventude marroquina. Tal realidade evidencia o fracasso do projeto de desenvolvimento do país em atender às necessidades dessa população.

“O que tenho visto aqui nas ruas é o mal-estar em relação ao aumento do custo de vida. Tambà falta de oportunidades e ao difícil acesso à saúde pública. Tudo isso faz com que a população marroquina sonhe em emigrar para a Europa em busca de uma vida melhor”, disse.

Relatos dos Serviços de Inteligência

Os serviços de inteligência espanhóis concluíram, conforme apuração do jornal espanhol El País, que Marrocos não teria planejado a imigração em massa. Contudo, o governo de Rabat teria permitido a movimentação dos jovens em seu território, utilizando a situação a seu favor.

A inteligência do país europeu identificou a omissão do governo de Rabat como um ato de “oportunismo” diante de uma crise que já estava se desenvolvendo. Em 2021, Ceuta enfrentou outra onda imigratória vinda de Marrocos, quando mais de 10 mil pessoas cruzaram a fronteira. Naquela ocasião, a Espanha acusou Rabat de promover a imigração, enfraquecendo os controles fronteiriços.

Os eventos em Ceuta estão sendo utilizados para justificar a implementação de políticas de migração mais rígidas na Europa. O governo de Donald Trump chegou a responsabilizar as políticas espanholas por “facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”.

Discussão em Torno de Ceuta e Melilla

O professor da UFRJ Nuno Carlos de Fragoso Vidal rejeitou a ideia de que o Rei Mohammed VI estaria sendo manipulado pelo governo Trump ou por Israel.

Essa teoria tem sido discutida, já que a Espanha foi o único país da Europa a se opor abertamente à guerra contra o Irã, fechando seu espaço aéreo para aeronaves militares dos EUA.

Segundo Vidal, a anuência marroquina em relação à imigração está relacionada a questões pertinentes ao próprio Estado de Marrocos, como o fato de Ceuta e Melilla serem enclaves espanhóis em território marroquino, sendo reclamadas há décadas pelo país africano, o que é estratégico para o controle do Estreito de Gibraltar.

“Em um momento em que o controle dos estreitos está ganhando importância geopolítica e geoestratégica, Marrocos pode estar tentando criar problemas por conta dessa reivindicação”, ponderou o professor.

No entendimento de Nuno Vidal, o reconhecimento do projeto marroquino para o Saara Ocidental pelo governo espanhol não pacificou as relações entre Rabat e Madri.

“Deveria ter pacificado as relações, mas Sánchez tem se aproximado das alas mais radicais da esquerda espanhola que o apoiam no poder, que defendem uma agenda pró-Sarauí [do povo do Saara Ocidental]”, comentou.

A Reação do Governo Espanhol

O governo da Espanha tem elogiado a postura das autoridades marroquinas durante a crise imigratória, afirmando que, ao contrário de 2021, Rabat estaria cooperando com Madri para deportar os imigrantes em situação irregular.

“Desde o início, Marrocos ofereceu sua cooperação para tentar impedir esse fluxo de pessoas e, sobretudo, garantir seu retorno. A maioria dos que entraram já retornou a Marrocos e o país continua oferecendo essa colaboração”, declarou o ministro das Relações Exteriores, José Manuel Albares, em entrevista à RTVE.

Ao mesmo tempo, Albares acusou grupos internacionais de mobilizarem as redes sociais contra a Espanha.

José Luís Del Roio observa que o governo espanhol evita acusar diretamente Marrocos para não agravar as tensões com o país africano, uma vez que precisa da colaboração dos marroquinos.

“Eles sabem perfeitamente qual é o quadro. Mas essa é uma decisão de não aumentar a tensão, porque já há muitas tensões, com os EUA, com os europeus. A situação é complexa”, comentou.

O presidente da cidade autônoma de Ceuta, Juan Jesus Vivas, afirmou recentemente que “Marrocos já demonstrou que não é confiável”. Vivas pediu que Espanha e a Europa exijam respeito do governo marroquino em relação às fronteiras.

Manifestação de Marrocos

Neste domingo (2), o governo marroquino fez sua primeira declaração oficial desde o início da crise de imigração em Ceuta e Melilla. O porta-voz do ministério do Interior, Rachid El Khalfi, afirmou que a crise foi resultado da disseminação de notícias falsas.

“Esses acontecimentos não decorrem de fatores circunstanciais ou espontâneos, mas são o resultado da interação de vários fatores interligados”, disse.

Segundo ele, houve “a instrumentalização tendenciosa” das redes sociais com a disseminação de informações falsas que visavam criar a ilusão de fácil acesso ao espaço europeu sem consequências legais.