Crônica de quando tietei Zuenir Ventura em Goiânia

O ano era 2008. Eu trouxe o Zuenir Ventura no Colégio Visão para falar aos alunos. Saibam um pouco desta história

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Elizeth Araújo

Não sou de ‘tietar’. Para não dizer que nunca ‘tietei’, certa vez não resisti e declarei minha admiração pelo canto de Ney Matogrosso no final de uma entrevista que fiz por telefone. É bom lembrar que a palavra ‘tietagem’ surgiu do Ney. Minha voz quase não saiu para dizer: “Olha, Ney, eu adoro sua voz!” Já para Cláudio Nucci, integrante do Boca Livre, escrevi um bilhetinho todo meloso e depois quase morri de vergonha, quando ele veio me agradecer no final de um show.

Quem nunca ‘tietou’ que atire a primeira pedra! Pois passei dois dias de pura tietagem ao acompanhar o jornalista e escritor Zuenir Ventura. Ele veio a Goiânia falar sobre o Maio de 68 para alunos, professores e jornalistas-convidados do Colégio e Curso Visão.

Na verdade, não fiz tietagem explícita, mas fiquei o tempo todo admirando o Zuenir. Mesmo quem não conhece toda sua história se impressiona no primeiro contato. Na quarta, 18, ele chegou a Goiânia, no Aeroporto Santa Genoveva, logo após mais de nove horas de vôo e espera. Saiu de Santos por volta das seis da manhã, foi para São Paulo e deu de cara com o aeroporto fechado por causa da neblina. Só conseguiu pisar em Goiânia às 15h30.

Mesmo cansado e faminto – só havia comido amendoim no ‘Arraiá’ da companhia aérea -, chegou sorrindo e pedindo desculpas pelo atraso. Fui logo me preocupando em desmarcar as visitas e entrevistas para que ele pudesse descansar no hotel. Mas ele se negou. Disse que quando viaja está sempre pronto a atender a todos os pedidos de entrevistas.

Em 2008, Zuenir não tem feito outra coisa a não ser viajar. Já visitou mais de 50 cidades brasileiras para falar de seus livros ‘1968 – O Ano que não terminou’ e ‘1968: O que fizemos de nós’, o primeiro, relançado, e o segundo, lançado em abril pela editora Planeta. E a peregrinação literária não deve parar tão cedo. Zuenir está com agenda lotada até o final do ano. São pedidos de universidades, escolas e outras instituições. Em Goiânia, Zuenir veio falar sobre o Maio de 68 a cerca de mil alunos.

Saímos do aeroporto e fomos direto para o hotel, onde ele só teve tempo para tomar um banho rápido, trocar de roupa e comer uns salgadinhos. Foi direto para a sede da Organização Jayme Câmara. Lá, achou interessante os corredores da empresa enfeitados com bandeirolas, balões e outros adereços juninos, e tanto mostrou quanto recebeu simpatia, em um momento em que poderia ser visto e recebido como um estorvo.

Era final de tarde, por volta das 17 horas, quando ele chegou à TV Anhanguera, horário em que jornalistas de todas as redações detestam visita de quem quer que seja. É hora sagrada, a do fechamento. Mas, com o Zuenir, foi diferente. Ele foi recebido com festa por repórteres e produtores, pela direção da TV, e gravou entrevista com o repórter Márcio Venício. A entrevista foi longa, apesar da hora imprópria. Márcio, além de jornalista, é sociólogo, portanto, um apaixonado pelo tema 1968 – e dá-lhe perguntas!

De lá, seguiu para a redação de O Popular. Chegou por volta das 18 horas, um dos horários mais estressantes de um jornal, quando os repórteres estão finalizando seus textos. Enfim, lá também era horário de fechamento. Logo após gravar outra longa entrevista, Zuenir foi convidado a visitar a redação. Muitos jornalistas pararam o que estavam fazendo para pedir autógrafo nos livros, conversar e até fazer fotos. Mas sempre com a mesma afabilidade, ele conversou com todos e falou de sua paixão pela redação de um jornal.

Não é à-toa que diz: “Jornalismo é minha segunda pele. Se raspar, sai tinta de jornal.” Zuenir foi ainda levado à reunião de editores, que estava pela metade, e lá também todos pararam o que estavam fazendo para cumprimentá-lo. Por várias vezes ele repetiu a frase: “O cheiro de uma redação me dá saudade. Tenho vontade de voltar”.

Assim, numa das muitas conversas que tivemos, perguntei a ele em qual redação gostou mais de trabalhar. Confessou que foi na do Jornal do Brasil. E elogiou Marcos Sá Corrêa, seu editor à época, por acreditar e investir em reportagem. Fosse outro, ele não teria ficado um mês no Pará para cobrir o assassinato do seringueiro Chico Mendes. A reportagem culminou com a prisão dos acusados. E, mais tarde, Chico Mendes seria tema de um de seus muitos livros: Chico Mendes: Crime e Castigo.

Zuenir cumpriu uma agenda pesada, mas gostosa, em Goiânia. Ele assistiu, a convite de Toquinho, João Donato e Miéli, velhos amigos que encontrou no vôo São Paulo-Goiânia, o show Bossa Nova para Sempre. Jantou com os amigos e voltou para o hotel só por volta das duas horas. Cansado? Não parecia. Levantou-se bem cedo para escrever a coluna que faz para o jornal O Globo duas vezes por semana.

Zuenir não gosta de dormir cedo nem de acordar tarde. Assim, repõe um pouco das energias após o almoço. Ele me disse que, para trazê-lo, eu mostrei um ‘pique de repórter’, mas aos 77 anos e cumprindo agendas pesadas por todo o Brasil, é inegável que quem tem ‘pique de repórter’ é ele. Escreveu a coluna e foi para a TV Serra Dourada. Em seguida, almoçou com professores, fez a costumeira pausa, visitou o colégio. E tome mais uma talagada de entrevistas antes de chegar ao palco para falar aos alunos.

Foi visível: Zuenir estava fisicamente cansado, mas revigorou-se assim que entrou no palco. As boas-vindas do professor de língua portuguesa Wendell Sullyvan, com um texto poético e sensível, já havia emocionado a platéia. Wendell soube pontuar com elegância literária o significado de receber Zuenir e a garotada assim respondeu à altura.

Mas quando chegou ao palco e viu quase mil jovens – que disputaram seus convites a tapa – aplaudindo-o vigorosamente, Zuenir marejou os olhos. Com um carisma impressionante, foi logo conquistando a garotada nas primeiras frases, com histórias divertidas e interessantes sobre sua vida. Quando contou que foi aluno de Manuel Bandeira, a platéia respondeu com um “ooooohhhhhhhhh!” comprido de admiração.

Ninguém acreditaria que os quase mil garotos e garotas ficaram caladinhos durante toda a fala, só se manifestando para interagir, jamais para atrapalhar. Sérios quando o assunto era pesado, sobre tortura e morte de jovens da mesma idade deles no período militar, e com gargalhadas quando o tema era engraçado. “Carrego esse nome infeliz de Zuenir e pelo menos duas vezes por semana alguém liga lá em casa procurando a dona Zuenir e eu respondo: é ela que está falando”, conforme contou, certa hora, o próprio. Como não rir? Todos riram, muito.

Zuenir falou da magia que paira até hoje sobre Maio de 68, e do ar de mistério para entender como jovens do mundo inteiro deixaram o cabelo crescer, ouviram as mesmas músicas e se rebelaram ao mesmo tempo pelas mesmas causas. Ele contou a história de um interrogatório a que foi submetido. Um coronel do Exército queria explicações sobre o fato de ele ter participado das manifestações da morte do estudante Edson Luís, no Centro do Rio de Janeiro, e da rebelião de jovens no mesmo ano em Paris. Zuenir explicou que o coronel repetiu várias vezes: “É muita coincidência, né?” E ele: “É. Muita coincidência.” Era mesmo, fazer o quê?

Nessa toada, Zuenir falou por cerca de uma hora, para em seguida ser bombardeado por perguntas de professores e estudantes sobre Maio de 68. Respondeu tudo, o que levou mais de uma hora. Sempre com calma, entusiasmo e muita, muita alegria na voz e nos olhos. Encontro oficialmente terminado, o público não arredava o pé. Ninguém queria ir embora. Logo, formou-se uma enorme fila na saída do auditório, com a garotada comprando livros.

Depois, outra fila, de autógrafos. E ele lá, todo paciência, mais de uma hora dedicando. E não escrevia pouco, escrevia grandes dedicatórias. A fila parecia não ter fim. A sessão de fotos também, mas ele parecia estar no paraíso. Sempre sorrindo, com doçura no olhar: puro contentamento e admiração. “São tão jovens e tão participativos. Quando eu estiver em outro lugar do país e alguém disser que o jovem de hoje não quer saber de nada, vou citar esse momento como exemplo.”

Mas tiete é tiete. Fui jantar com Zuenir e, provocado, ele contou histórias do JB, do tempo com Vinícius de Moraes, falou de Fernando Henrique Cardoso, sobre Lula, linguagem e internet. O papo rolou solto, agradável, gostoso. A magia está em Zuenir. Pois ele fala a língua dos jovens e, por onde passou, seduziu e conquistou com informações preciosas, histórias fascinantes e uma humildade raras vezes vista no mundo do jornalismo e da literatura. Zuenir é, de fato, puro encanto. Inesquecível.