Democratas ensaiam vitória eleitoral contra Trump, mas cultura política dos EUA deixa corrida em aberto

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Eduardo Sartorato

Se há uma coisa certa na política dos Estados Unidos é que o governo do presidente Donald Trump (Republicano) está muito mal avaliado. Atualmente, o líder do país mais rico do mundo é aprovado por apenas 34% da população americana, contra 61% de desaprovação, segundo o agregador de pesquisa da revista The Economist.

A diferença de 27 pontos contrária ao governo Trump pode ser explicada por vários fatores, como o aumento do custo de vida – combustíveis, alimentos, aluguéis, hipotecas, e etc… -, assim como a quebra da promessa de retirar o país de “guerras sem fim”, feita nas eleições presidenciais de 2024. Tudo isso coloca Trump em xeque para as eleições parlamentares de meio de mandato, marcadas para a próxima terça-feira (3/11).

Neste pleito, estão em jogo os controles das duas casas legislativas, o Senado e a Câmara dos Representantes, fundamentais para a governabilidade de Trump nos dois anos finais de mandato. Segundo as pesquisas atuais, os democratas lideram, nacionalmente, as intenções de voto com uma ampla vantagem de oito pontos sobre os republicanos.

A grande questão é que este número demonstra apenas que Trump está em baixa, mas não necessariamente que ele perderá o comando das casas, já que o pleito americano é distrital. Desta forma, cada distrito possui a sua própria cultura e história, e as disputas são individualizadas dentro das características de cada local.

Democratas são favoritos para a Câmara; no Senado, corrida está mais igual

Segundo o site 270towin.com, um dos muitos que fazem o mapa atual de como está o jogo eleitoral no país, os democratas levam vantagem para assumir as duas casas. A disputa na Câmara está mais favorável para os opositores de Trump do que a do Senado. De acordo com a previsão, os democratas devem garantir pelo menos 220 cadeiras na Câmara dos Representantes, contra 196 dos republicanos. Do total, 19 cadeiras estão com disputa muito acirrada e ainda não é possível indicar vitória de qualquer um dos lados. De qualquer forma, confirmado esse número de deputados, o Partido Democrata terá a maioria dos 435 assentos, já que esta se configura com a eleição de 218.

Já no Senado, a disputa está mais quente. Segundo a previsão, os democratas são favoritos para ocupar 47 das 100 cadeiras – somando mais duas dos independentes oposicionistas, dá um total de 49 a partir de 2027. Já os republicanos têm a previsão de 46 assentos. Do total, cinco estão em disputa acirrada. A maioria se forma com 51 e este número é vital para os democratas. Isso ocorre porque, segundo a legislação dos Estados Unidos, o vice-presidente do país acumula a função de presidente do Senado. No caso, se os dois partidos tiverem 50 senadores, a maioria seria dos republicanos, já que o vice-presidente J. D. Vance desempataria as votações mais polêmicas.

Pesquisas dão vantagem aos democratas nos cinco estados-chave

O detalhe é que, hoje, segundo as últimas pesquisas, os democratas possuem vantagem nas cinco disputas em aberto. Na última pesquisa CNN/SSRS, por exemplo, no Texas, divulgada nesta quinta-feira (29/10), o candidato democrata James Talarico aparece na frente do republicano Ken Paxton, por uma diferença de seis pontos. O mesmo ocorre no Kansas, onde o democrata Adam Hamilton está quatro pontos à frente do republicano Roger Marshall, segundo pesquisa CNN/SSRS, também de quinta (29/10).

Nos outros três estados-chave, os democratas também têm vantagem segundo as pesquisas. Em Iowa: Josh Turek (D) 45% X 43% Ashley Hinson (R), Echelon Insights (27/10); em Ohio: Sherrod Brown (D) 47% X 44% Jon Husted (R), Siena College (28/10); e no Maine: Troy Jackson (D) 49% X 45% Susan Collins (R), CNN/SSRS (29/10).

Porém, há alguns aspectos que devem ser considerados e que mostram que a disputa no Senado ainda está aberta. Primeiro, as margens de erro dessas pesquisas são altas, entre quatro e cinco pontos para mais ou para menos. Segundo, nos Estados Unidos, em muitos lugares, a cultura do bipartidarismo fala mais alto do que o momento político-econômico do país.

Há milhões de eleitores que votam em seus partidos, democrata ou republicano, em qualquer hipótese, seja qual for o momento e os problemas atuais do país. Além disso, o fato de o voto ser opcional, diferentemente do Brasil, faz com que a taxa de comparecimento nem sempre seja alta, aumentando a imprevisibilidade.

Voto do eleitor jovem pode ajudar a mudar características de estados

O que pode ser um ‘elemento surpresa’ nessas eleições é o voto dos mais jovens. Este geralmente é mais imprevisível e pode modificar a tradição política local de alguns estados. É por isso que democratas e republicanos têm atuado bastante para conquistar a preferência dos jovens eleitores da Geração Z na reta final da disputa.

O Texas, por exemplo, onde o democrata Talarico está à frente nas pesquisas, não elege um senador democrata desde 1988, quando Lloyd Bentsen venceu o republicano Beau Boutler. Além da renovação com a Geração Z, o eleitorado texano também passa por uma transformação pelo alto número de imigrantes vindos do México que tiveram cidadania adquirida, ou que já estão na segunda ou terceira geração nascida nos Estados Unidos.

Já no Kansas, outro estado historicamente republicano, a última vez que o eleitorado elegeu um senador democrata foi há quase cem anos. Em 1932, os eleitores reelegeram George McGill e, de lá para cá, o estado só teve senadores republicanos.

Se perder as duas casas, agenda mais radical de Trump estará perto do fim

Os números e a história mostram que estas eleições parlamentares nos Estados Unidos, apesar do favoritismo democrata, só serão definidas, de fato, na última hora. Em jogo, a continuidade e o tom do governo Donald Trump. Se perder as duas casas, o republicano estará amarrado e não terá condições de dar continuidade aos seus planos mais radicais. Um impeachment é pouco provável, mas estará sempre à mesa, caso o presidente insista em sua agenda agressiva.

Já do lado democrata, no caso de conseguir o comando das duas casas, o resultado será certamente histórico para o partido, e um alento interno para a corrida presidencial de 2030. Principalmente, após a derrota acintosa em 2024.