OMS: surtos de doenças preveníveis ameaçam progresso na vacinação

Vacinas salvaram mais de 150 milhões em 50 anos, destaca entidade

Esforços de imunizaçãoFoto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Compartilhe

Os esforços de imunização estão sob crescente ameaça à medida que a desinformação, o crescimento populacional, as crises humanitárias e os cortes de financiamento comprometem o progresso e deixam milhões de crianças, adolescentes e adultos em risco. O alerta foi feito nesta quinta-feira (24/04) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em razão da Semana Mundial de Imunização. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Aliança Mundial para Vacinas e Imunização (Gavi) também se manifestaram.

Em nota, as entidades destacam que surtos de doenças preveníveis por meio da vacinação, como o sarampo, a meningite e a febre amarela, estão aumentando globalmente. Como resultado, doenças como a difteria, que há muito tempo vinham sendo mantidas sob controle ou praticamente desapareceram em diversos países, correm o risco de ressurgir. Em resposta, as agências pedem “atenção política urgente e sustentada”. As entidades pedem ainda investimento para fortalecer programas de imunização e proteger o progresso alcançado na redução da mortalidade infantil nos últimos 50 anos.

OMS

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ressaltou, em seu perfil na rede social X, a importância das vacinas. Segundo ele, elas salvaram mais de 150 milhões de vidas ao longo das últimas cinco décadas. “São mais de 4 milhões de vidas salvas a cada ano. Com imunização para todos, tudo é possível”, escreveu. “Graças às vacinas, uma criança nascida nos dias atuais tem 40% mais chance de sobreviver ao seu primeiro ano de vida do que há cinquenta anos.”

“Com novas vacinas contra a malária e o câncer cervical, estamos salvando ainda mais vidas. Mas, com os cortes recentes no financiamento para a saúde global, esses ganhos duramente conquistados estão em risco. Surtos de doenças preveníveis por meio de vacinas estão aumentando em todo o mundo, ameaçando milhões de vidas. As vacinas não protegem apenas a vida de cada indivíduo, protegem comunidades, sociedades e economias”, completou Tedros.

Sarampo

A OMS alerta que o sarampo está ressurgindo “de forma especialmente perigosa”. O número de casos, de acordo com a entidade, vem aumentando ano a ano desde 2021, acompanhando reduções na cobertura vacinal registradas desde a pandemia de covid-19 em diversas localidades. Os casos chegaram a atingir a marca de mais de 10 milhões em 2023 – um aumento de 20% em relação a 2022.

As três agências avaliam que essa tendência ascendente de novas infecções provavelmente se manteve ao longo de 2024 e também continuará em 2025, “na medida em que os surtos se intensificaram em todo o mundo”. Nos últimos 12 meses, 138 países relataram casos de sarampo. 61 registraram surtos classificados como grandes ou disruptivos – o maior número observado em um período de 12 meses desde 2019.

Meningite

Casos de meningite na África também aumentaram acentuadamente em 2024, e a tendência ascendente, segundo a OMS, continua em 2025.

Apenas nos três primeiros meses deste ano, mais de 5,5 mil casos suspeitos da doença foram relatados. Quase 300 mortes ocorreram em um total de 22 países. Além disso, no ano passado foram cerca de 26 mil casos e quase 1,4 mil mortes notificados em 24 países.

Febre amarela

Conforme dados da OMS mostram que os casos de febre amarela aumentaram na região africana, com 124 confirmações em 12 países apenas em 2024. “Isso ocorre após declínio significativo de casos da doença na última década, graças aos estoques globais de vacinas e ao uso da vacina contra a febre amarela em programas de imunização de rotina”.

Na região das Américas, surtos de febre amarela vêm sendo confirmados desde o início deste ano. Foi contabilizado um total de 131 casos em pelo menos quatro países, incluindo o Brasil.

Cortes no financiamento

“Esses surtos ocorrem em meio a cortes no financiamento global. Balanço recente da OMS com 108 escritórios da entidade – sobretudo em países de baixa e média renda – mostra que quase a metade deles enfrenta interrupções moderadas ou graves em suas campanhas de vacinação, na imunização de rotina e no acesso a suprimentos em razão da redução do financiamento de doadores”, destacou a OMS.

A vigilância de doenças, inclusive doenças preveníveis por meio da vacinação, de acordo com a entidade, também vem sendo afetada em mais da metade dos países pesquisados.

Crianças não vacinadas

Os números mostram ainda que o contingente de crianças que não receberam vacinas de rotina vem aumentado ao longo dos últimos anos. Isso acontece ainda que os países se esforcem para alcançar menores que não foram imunizados durante a pandemia. A estimativa é que, em 2023, cerca de 14,5 milhões de crianças tenham ficado sem receber todas as doses da vacinação de rotina. O número é superior aos 13,9 milhões registrados em 2022 e aos 12,9 milhões de 2019.

“Mais da metade dessas crianças vive em países que enfrentam conflitos, fragilidade ou instabilidade, onde o acesso aos serviços básicos de saúde é frequentemente interrompido”, destacou a OMS.

“A crise global no financiamento está limitando severamente nossa capacidade de vacinar mais de 15 milhões de crianças vulneráveis contra o sarampo em países frágeis e afetados por conflitos”, disse a diretora executiva do Unicef, Catherine Russell.

“Os serviços de imunização, a vigilância de doenças e a resposta aos surtos em quase 50 países já estão sendo interrompidos – com retrocessos em um nível semelhante ao que vimos durante a pandemia de covid-19. Não podemos nos dar ao luxo de perder terreno na luta contra doenças evitáveis.”

Agência Brasil

Leia também: Goiânia ultrapassa 62 mil vacinados contra Influenza