Eduardo Sartorato
A Copa do Mundo 2026 terminou com a Espanha levantando a sua segunda taça na história, em um torneio que voltou a consagrar a disciplina tática e controle da posse de bola do meio de campo espanhol. Porém, o número de celeumas e pontos negativos, dentro e fora de campo, também marcou a 23ª edição da galinha dos ovos de ouro da Fifa, e maior evento esportivo do planeta.
Na parte técnica, a Espanha voltou a dominar times até então tecnicamente superiores, priorizando a posse de bola e uma marcação forte e avançada no meio de campo. O maior exemplo foi o jogo contra o poderoso ataque francês na semifinal, que para muitos foi uma final antecipada. Em 90 minutos, Dembelê e Mbappé e sua trupe, que até então brilhavam no torneio e já pensavam em qual espaço da prateleira colocariam o terceiro troféu de seu país, foram completamente anulados em campo.
Não é por acaso que Rodri, volante espanhol, ganhou a Bola de Ouro como melhor jogador da Copa, em um torneio onde vários artilheiros brilharam, como o próprio Mbappé, Messi e Harry Kane. O grande desempenho do espanhol relembra a temporada brilhante que teve no Manchester City em 2024, quando o jogador venceu a Bola de Ouro, organizada pela revista France Football. À época, o prêmio revoltou a imprensa brasileira, que queria o reconhecimento para o atacante Vini Jr. do Real Madrid. Muitos, inclusive, acusaram os votantes de racismo.
Fifa anula cartão vermelho a pedido de Trump
A Copa do Mundo, porém, também vai ficar marcada por inúmeras controvérsias, desrespeitos, privilégios e arbitrariedades, do início ao fim do torneio, dentro e fora de campo. Talvez o caso que mais ilustra isso tudo foi a anulação da suspenção do atacante americano Folarin Balogun a pedido do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Balogun fora expulso no jogo das oitavas de final contra a Bósnia, pelo árbitro brasileiro Raphael Claus. O cartão vermelho o tiraria do jogo das quartas de final contra a Bélgica. A Fifa, porém, reavaliou o caso após Trump telefonar para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e pedir que ele não fosse suspenso. De forma inédita, a entidade máxima do futebol anulou a suspensão, e o atacante enfrentou a Bélgica. Por coincidência, ou não, Balogun teve atuação muito apagada em campo e viu sua seleção perder por 4 a 1.
Governo americano prejudicou o Irã
Outra questão política que atuou contra isonomia do torneio, algo que deve ser prezado como instância máxima do esporte, foi o tratamento dado pelo governo dos Estados Unidos e a Fifa à seleção do Irã. Com uma guerra entre americanos e iranianos em curso – conflito este que começou no fim de fevereiro, com ataques unilaterais de forças dos Estados Unidos e de Israel ao país persa -, todo o tipo de barreiras foi colocado à seleção asiática.
Em meio a essa celeuma, a Fifa pouco fez para ajudar a seleção iraniana a ter condições mais igualitárias no confronto contra os seus adversários. Logo no início, negou trocar os jogos do Irã para o Canadá ou México, o que solucionaria o problema. Por recusa de vistos mais amplos, a delegação iraniana teve que mudar os planos de onde se hospedaria durante o torneio – tinha planos de se estabelecer no Arizona, mas precisou ir para Tijuana, no México, devido a negativa do governo americano.
No fim, o governo americano liberou a entrada da delegação do Irã no país apenas no dia de cada jogo. Assim, os iranianos tiveram que deixar os Estados Unidos logo após cada partida, voltando em seguida ao México. Isso criou deslocamentos aéreos obrigatórios, diferentemente de seus adversários que puderam pernoitar na cidade em que jogaria. Mesmo assim, o Irã não foi derrotado em território americano – teve três empates, e quase se classificou como um dos melhores terceiros colocados.
Árbitro somali barrado foi acusado de associação terrorista
A negativa de visto também vitimou a participação do árbitro Omar Abdulkadir Artan, da Somália, considerado o melhor profissional do continente africano. Ele foi detido no aeroporto de Miami e mandado de volta por “suposta associação a grupos terroristas”. Mais uma vez, a Fifa lavou as mãos e não atuou para solucionar o problema de um dos árbitros de seu próprio quadro.
Neste caso, inclusive, a solução seria ainda mais fácil do que a celeuma entre Estados Unidos e Irã – era apenas escalá-lo para partidas no Canadá e México. Mesmo assim, a entidade máxima do futebol retirou o juiz da Copa. Como resposta a tal situação, a Uefa, confederação europeia, escalou Artan para apitar a final da Supercopa Europeia, entre PSG e Aston Villa, dia 12 de agosto, em Viena, na Áustria.
Dentro de campo, a arbitragem também foi problema na Copa, com reclamação de várias equipes. As mudanças para evitar catimba de jogadores funcionou bem, como a punição de um minuto fora do jogo para o atleta que fosse atendido dentro de campo pela equipe médica. O critério de maior permissividade em contatos entre jogadores para a marcação de falta, porém, foi um problema. Para dar maior fluxo, os árbitros foram orientados a serem menos rigorosos ao apitar as infrações, o que gerou jogos onde faltas não foram marcadas e outros onde o mesmo critério não foi seguido.
Árbitros das semifinais tiveram escalação política
Uma outra questão foi a escalação política de árbitros na semifinal, colocando juízes com pouca experiência em uma fase crucial do torneio. O confronto entre França X Espanha foi comandando pelo árbitro de El Salvador, Iván Barton Cisneros, que claramente não tinha condição de apitar um jogo tão importante. Ele se perdeu em campo durante o jogo, com decisões equivocadas, irritando os dois lados. Na outra semifinal, o árbitro foi Ismail Elfath, dos Estados Unidos, que teve uma atuação melhor que o salvadorenho.
A Fifa escalou os dois como uma compensação para a Concacaf, confederação das américas do Norte, Central e Caribe, que sediava o torneio e teve sua última seleção eliminada ainda nas oitavas de final. Ou seja, critério político sendo utilizado no lugar do critério técnico em fase decisiva da Copa.
Parada técnica colecionou críticas
Contudo, talvez a maior polêmica dentro de campo foi a parada técnica obrigatória para hidratação, por volta dos 22 minutos de cada tempo. Extremamente criticada por atletas, treinadores, dirigentes, jornalistas, ex-atletas e etc., a introdução do intervalo de três minutos criou um jogo de quatro tempos, ao invés dos dois convencionais, alterando o ritmo do jogo. O pior, porém, foi que a decisão pela parada obrigatória não foi tomada por razão técnica, e sim comercial – emissoras de TV comercializaram o espaço e aumentaram consideravelmente o faturamento das transmissões.
Outra novidade nessa Copa que irritou vários torcedores foi a adoção do preço dinâmico dos ingressos pela Fifa. O fato excluiu muitos fãs que se acostumaram a comprar pelo preço de tabela, algo que vinha ocorrendo até a Copa passada. Em 2026, foi comum o preço de um ingresso para jogos da primeira fase ultrapassar os U$ 1.000. Aliás, primeira fase que saiu de 48 para 72 jogos com a expansão no número de seleções classificadas, mas onde apenas 16 das 48 seleções foram eliminadas. Este foi outro ponto polêmico do torneio – muito jogo para que dois terços das equipes passassem para a próxima fase.
O nível técnico da Copa 2026 foi bom – produziu alguns grandes jogos, com alta taxa de emoção, e com suas estrelas brilhando até o final. O lado B da Copa, porém, também se destacou durante torneio, principalmente devido a uma Fifa que olha cada vez mais apenas para o lado político comercial. As vaias do estádio em Nova Jersey para Infatino e Trump, quando ambos adentraram ao gramado para entregar a taça, no último domingo (19/7), em contraponto a jogadores como Messi, Rodri, Yamal, pode ser o resumo desta edição – uma Copa com grandes craques, arranhada pela cúpula do comando maior do futebol.


