Quando Ariela Anita, de 13 anos, precisa realizar o tratamento contra o câncer, ela deixa Anápolis e segue até Goiânia. Após o atendimento, pode retornar para casa. Embora essa rotina pareça simples, representa uma mudança significativa para crianças e adolescentes que enfrentam a doença, além de impactar suas famílias.
Antes da abertura do Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás (Cora), a rede pública estadual não dispunha de um hospital com esse perfil de atendimento especializado. Nesta sexta-feira (25/9), a unidade completa um ano de sua inauguração oficial, embora os atendimentos tenham começado um pouco antes, em junho de 2025.
Ariela, em tratamento desde março, compreende a importância dessa estrutura em Goiás. “Antigamente, quando não havia essa estrutura aqui, as pessoas precisavam ir para Barretos. Agora, com este hospital, tudo ficou muito melhor, porque podemos vir e voltar de forma rápida e tranquila”, afirmou. Além da proximidade, ela ressalta a forma como é recebida durante esse período delicado. “Eles tratam você com amor e de forma muito humanizada, colocando-se no seu lugar.”
A mãe de Ariela, Lívia de Carvalho, de 41 anos, compartilha dessa percepção. Para ela, o tratamento não envolve apenas os procedimentos médicos, mas também o acolhimento que a criança e sua família recebem. “A gente vê muita empatia de cada profissional. Eu diria que construímos uma família aqui”, relatou. Poder retornar para Anápolis após os procedimentos ajuda a preservar a rotina familiar. “Hoje a gente vem, faz o procedimento e vai embora para casa. Tudo isso contribui para o tratamento e para o convívio da família.”
Atendimentos e procedimentos realizados
No primeiro ano de funcionamento, o Cora registrou 34.783 atendimentos, que incluem 12.840 consultas multiprofissionais, 7.131 consultas médicas e 7.148 exames especializados. Além disso, a unidade realizou 3.678 sessões de quimioterapia, 2.077 cirurgias e 1.903 procedimentos cirúrgicos de menor porte. Desde março deste ano, passou a oferecer transplante de medula óssea, contabilizando nove procedimentos.
A possibilidade de concentrar a assistência no próprio Estado é destacada pelo oncologista pediátrico Renato Melaragno. De acordo com ele, o câncer pediátrico, embora raro, está entre as principais causas de morte de crianças e adolescentes. Até a implantação do Cora, certos casos exigiam que pacientes buscassem assistência em várias unidades ou até em outros estados.
“A gente tem hoje aqui a possibilidade dessas crianças não saírem do Estado. Por exemplo, tivemos metade dos pacientes com tumores cerebrais. Não havia nenhum hospital em Goiás que tratasse de tumor cerebral. Sair para procurar assistência fragmenta o tratamento, o que não é positivo”, relatou.
Redução do tempo de espera para tratamento
Atualmente, crianças e adolescentes diagnosticados na unidade podem permanecer no Cora para tratamento, com acesso a consultas, exames especializados, quimioterapia e cirurgias. Desde março, a estrutura também realiza transplantes de medula óssea, com nove procedimentos realizados até o momento. O atendimento beneficia pacientes de diversos municípios goianos e já recebe crianças de Mato Grosso, Rondônia, Acre, Amazonas e Bahia.
A assistência também busca encurtar o período angustiante para as famílias, reduzindo o intervalo entre a suspeita da doença, a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento. O secretário de Estado da Saúde, Rasível Santos, destacou que a média entre a primeira consulta no Cora e o início da terapia é de apenas cinco dias. “Ele faz todos os exames; tem o diagnóstico em três dias e inicia o tratamento dois dias depois. No caso de doença hematológica, iniciamos o tratamento no mesmo dia do diagnóstico”, explicou.
Para Rasível, o impacto de uma estrutura especializada vai além do paciente. A doença altera a rotina dos pais, irmãos e de toda a rede que apoia a criança durante o tratamento. “Curar a criança é curar a sua família, porque uma criança doente adoece toda a família”, resumiu.






