Dia do Orgulho! Conheça os impactos da ansiedade e dos medos na população LGBTQIAPN+

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Rafhael Borges

Quando uma criança aprende a andar, ninguém espera que ela corra uma maratona no dia seguinte. Com a vida afetiva ocorre algo semelhante: ela também construída aos poucos, por meio das primeiras paixões, dos primeiros beijos, das descobertas, das inseguranças e dos erros próprios da adolescência.

Mas para milhões de pessoas LGBTQIAPN+, esse processo simplesmente não ocorre no mesmo momento que para a maioria dos colegas.

Enquanto boa parte dos adolescentes heterossexuais vive as primeiras experiências amorosas na escola, apresenta o primeiro namorado ou namorada à família e aprende, aos poucos, a lidar com rejeições e inseguranças, muitos jovens LGBTQIAPN+ passam exatamente esse período tentando esconder quem são.

Em vez de aprenderem como amar, aprendem primeiro como sobreviver.

Essa diferença, aparentemente invisível, pode deixar marcas profundas na saúde mental.

Uma adolescência que chega anos depois

Psicólogos frequentemente observam um fenômeno conhecido informalmente como “adolescência tardia”. Não se trata de um diagnóstico, mas de uma forma de explicar uma realidade vivida por muitas pessoas LGBTQIAPN+.

Depois de anos escondendo sentimentos, reprimindo desejos ou fingindo interesse por pessoas do sexo oposto para evitar conflitos familiares ou sociais, muitos só começam a viver experiências afetivas quando já estão na universidade, no mercado de trabalho ou até depois dos 30 anos.

É como se parte da adolescência tivesse assim adiada.

“A pessoa heterossexual se percebe pertencente logo de cara e por isso, consegue voltar sua atenção totalmente ao desenvolvimento de sua sexualidade. Por outro lado, pessoas LGBT+ muitas vezes não se reconhecem nos espaços em que estão inseridos, sempre ouvindo o quanto aquilo que sentem é visto como errado ou proibido, podendo reprimir sua sexualidade e direcionando a atenção a outras atividades. Somente quando adultos, já com certa independência emocional e/ou financeira, sentem-se autorizados, de certa forma, a explorar suas orientações sexuais”, explica o psicólogo Rafael Marques.

O peso de estar sempre em alerta

Diversos estudos internacionais mostram que viver constantemente em estado de vigilância produz um desgaste emocional significativo.

Não é apenas o medo de sofrer violência.

Também existe o medo de decepcionar os pais, perder amigos, excluído da escola, sofrer bullying, ser demitido ou simplesmente deixar escapar algum comportamento que revele a orientação sexual ou identidade de gênero.

Ao longo dos anos, esse estado permanente de alerta pode contribuir para quadros de ansiedade, depressão e baixa autoestima.

“Esse fenômeno é descrito na literatura como estresse de minoria. Dados de pesquisas da APA (Associação Americana de Psicologia), mostram que pessoas LGBTQIA+ apresentam cerca de duas vezes mais chances de desenvolver transtornos de ansiedade e depressão e mais de quatro vezes mais probabilidade de tentar suicídio em comparação com a população heterossexual e cisgênero. Esses resultados não são explicados pela orientação sexual em si, mas pela exposição contínua ao preconceito, à discriminação e à necessidade de viver em constante estado de alerta”, afirma o psicólogo.

A ansiedade de performance nos relacionamentos

Quando finalmente encontram um ambiente seguro para viver a própria sexualidade, muitas pessoas LGBTQIAPN+ carregam outro desafio: a sensação de que precisam “acertar tudo”.

Sem experiências anteriores, surgem inseguranças que vão desde o primeiro beijo até os primeiros relacionamentos.

É comum aparecer a ansiedade de performance — o medo exagerado de decepcionar o parceiro, não corresponder às expectativas ou demonstrar inexperiência.

Enquanto muitos heterossexuais tiveram anos para aprender gradualmente sobre relacionamentos, parte da população LGBTQIAPN+ precisa lidar com essas descobertas já na vida adulta.

“A falsa ideia de que, para ser aceita, a pessoa LGBTQIA+ precisa fazer tudo perfeitamente, evitar desagradar os outros ou jamais “dar trabalho” pode ser compreendida como um desdobramento de experiências traumáticas de rejeição e estigmatização. Esses comportamentos não correspondem a critérios reais para receber afeto, pertencimento ou respeito, mas são frequentemente internalizados como estratégias de sobrevivência. Com o tempo, passam a fazer parte da rotina de muitas pessoas LGBTQIA+, alimentando um estado constante de autocobrança, vigilância e ansiedade de desempenho,”, acrescenta o psicólogo.

A tentativa de compensar o tempo perdido

Outro comportamento frequentemente relatado por profissionais da saúde mental é a sensação de urgência.

Depois de anos sem poder viver livremente, algumas pessoas tentam recuperar o tempo perdido.

Elas saem mais, conhecem mais pessoas, experimentam diferentes relacionamentos e vivenciam experiências que muitos heterossexuais tiveram ainda na adolescência.

Esse processo, porém, costuma ser interpretado de forma equivocada.

O preconceito cria um estereótipo injusto

Existe um estigma histórico de que pessoas LGBTQIAPN+ seriam mais promíscuas.

Especialistas alertam, porém, que essa generalização ignora fatores sociais importantes.

Em muitos casos, não se trata de uma característica da orientação sexual, mas de pessoas vivendo, pela primeira vez, etapas naturais do desenvolvimento afetivo adiadas durante anos.

Em outras palavras: elas não estão vivendo “mais” do que qualquer outra pessoa.

Apenas estão vivendo mais tarde.

“O estereótipo da “promiscuidade” também exerce um efeito psicológico relevante. Muitas pessoas LGBTQIAPN+ crescem ouvindo que sua sexualidade é excessiva, descontrolada ou moralmente inferior. Essa narrativa pode gerar vergonha, culpa e vigilância constante sobre o próprio comportamento, levando algumas pessoas a reprimirem sua expressão afetiva e sexual, enquanto outras sentem que qualquer comportamento íntimo será interpretado como confirmação do preconceito. Assim, o estigma não descreve a realidade da maioria das pessoas LGBTQIAPN+, mas influencia profundamente a forma como elas passam a vivenciar sua própria sexualidade”, completa o psicólogo Rafael Marques.

O impacto da rejeição

A rejeição familiar continua sendo um dos fatores mais associados ao sofrimento psíquico da população LGBTQIAPN+.

Quando o ambiente que deveria oferecer acolhimento se transforma em espaço de medo, o risco para ansiedade, depressão, isolamento social e outros transtornos aumenta significativamente.

Por outro lado, pesquisas mostram que ambientes familiares acolhedores funcionam como um dos principais fatores de proteção para a saúde mental dessa população.

Orgulho também significa cuidar da saúde mental

O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado em 28 de junho, lembrado pelas cores das bandeiras, pelas paradas e pelas manifestações culturais.

Mas a data também convida à reflexão sobre algo menos visível: o direito de crescer sem medo.

Poder viver a adolescência no tempo certo.

Poder errar sem culpa.

E assim, poder descobrir quem se é sem precisar esconder sentimentos.

Porque orgulho não significa ausência de sofrimento.

Significa que ninguém deveria adoecer simplesmente por existir.

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