Entenda como “fazenda de cliques” pode influenciar debates em eleição

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A polícia da Bolívia encontrou uma “fazenda de bots” ou “robôs”, também conhecida como “fazenda de cliques”, em um endereço associado ao consultor político Fernando Cerimedo, que trabalhou para diversos presidentes latino-americanos. Ele foi preso sob a acusação de tentativa de feminicídio em Santa Cruz de la Sierra.

Cerimedo atuou como estrategista político em ambientes digitais para lideranças da extrema-direita e direita latino-americanas, assessorando presidentes como Rodrigo Paz, da Bolívia, Javier Milei, da Argentina, e Nasry “Tito” Asfura, de Honduras. Além disso, ele participou da campanha de desinformação que questionou a lisura da eleição brasileira de 2022, sem apresentar provas, durante uma audiência no Senado Federal.

Durante as buscas realizadas, o fiscal do departamento de La Paz, Luis Carlos Torrez Alarcón, afirmou que foi descoberta uma “minigranja de bots”. Cerimedo, que foi preso na última semana, foi descrito pela revista The Economist como “o homem do MAGA na América Latina”, em referência ao slogan do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, “Make America Great Again”.

A Agência Brasil tentou entrar em contato com a defesa de Cerimedo, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.

O que são fazendas de bots?

As “fazendas de bots” são sistemas automatizados utilizados para gerar interações nas redes sociais, como curtidas, comentários e compartilhamentos, disfarçando-se como perfis reais. Essas fazendas podem administrar milhares de contas falsas para influenciar debates, especialmente em períodos eleitorais.

O pesquisador Reynaldo Aragon, do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, explicou que essas estruturas são organizadas e criadas para simular uma mobilização social espontânea. “Muitas dessas contas repetem uma expressão e impulsionam uma hashtag, compartilham o mesmo conteúdo e interagem entre si em pouco espaço de tempo, produzindo artificialmente volume e velocidade nas redes sociais”, disse à Agência Brasil.

Alexandre Arns Gonzales, doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), ressaltou que as fazendas de bots são utilizadas porque os ambientes digitais favorecem conteúdos com maior engajamento. “Essas fazendas de cliques são usadas para tentar alimentar artificialmente métricas de visualização e engajamento, servindo como instrumento para ataques ou defesas coordenadas a contas, temas ou candidatos”, explicou.

Engajamento artificial e casos emblemáticos

O jornalista Reynaldo Aragon, editor do portal Código Aberto, citou um exemplo de sucesso de uma fazenda de bots, onde uma notícia falsa repercutiu na eleição de 2018, alcançando 30 milhões de usuários e impactando negativamente um dos candidatos daquele pleito. Ele afirmou que a operação tenta dar um impulso inicial ao conteúdo para que alcance pessoas reais além da rede artificial. Muitos bots conseguem, inclusive, interagir com usuários verdadeiros.

Um caso emblemático mencionado por Alexandre Arns Gonzales foi o de uma empresa na Tunísia que buscou influenciar eleições em dez países africanos. Em junho de 2020, o Facebook derrubou mais de 900 páginas e contas relacionadas a essa companhia, que contava com cerca de 3,8 milhões de contas do Facebook seguindo uma ou mais de suas páginas.

Custos e regulamentações necessárias

De acordo com Gonzales, a prática das fazendas de bots não é barata, exigindo um grande número de equipamentos e celulares, além de mobilização de recursos financeiros e humanos, sendo frequentemente relatada em processos eleitorais.A Meta e o Google caracterizam tais ações como redes de comportamento inautêntico coordenado, destacou Alexandre Gonzales.

O especialista ressalta que os planos de conformidade exigidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das grandes empresas de tecnologia podem ajudar a identificar e denunciar indícios de fazendas de bots. “Caso essas fazendas ataquem a lisura do processo eleitoral, os sistemas da Meta, Google e TikTok podem apresentar indícios de comportamentos inautênticos”, comentou Gonzales.

No entanto, Reynaldo Aragon acredita que o TSE ainda não está preparado para lidar com esse problema, e ressalta que provavelmente existem várias fazendas de cliques no Brasil. Para combatê-las, seriam necessárias investigações da polícia ou de organizações da sociedade civil, uma vez que confiar apenas nas plataformas significa abrir mão de regulação da informação, que elas não desejam.

O TSE não se pronunciou sobre o tema até o fechamento desta reportagem.

MAGA na América Latina

Em fevereiro de 2026, Fernando Cerimedo foi premiado como “consultor político hispânico do ano” pela organização Latino Wall Street, durante uma cerimônia na residência do presidente Donald Trump, em Mar-a-Lago. O prêmio foi entregue pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que foi condenado por coação em processo judicial.

No Brasil, Cerimedo se destacou após o segundo turno das eleições de 2022, quando participou de uma transmissão ao vivo alegando fraude no resultado das urnas. Recentemente, ele foi preso por tentativa de feminicídio contra a ativista Nadia Beller, que o acusou de ser o mandante do atentado que sofreu.

De acordo com Beller, Cerimedo a convenceu a ir ao local do atentado, onde foi ferida por disparos de arma de fogo. A defesa de Cerimedo nega a acusação e alega que ele é vítima de uma armação política.