O maior e mais abrangente estudo sobre dengue grave em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) na América do Sul revelou indicadores importantes registrados nas primeiras 24 horas de internação, que ajudam a identificar pacientes com maior risco de morte.
Conduzida por profissionais do Einstein Hospital Israelita, em parceria com o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), a pesquisa analisou mais de 40 mil admissões em UTIs ao longo de 10 anos (2015 a 2024). E identificou os principais fatores associados à mortalidade por dengue grave. A idade avançada, a fragilidade prévia dos pacientes e sinais precoces de queda de pressão. O artigo publicado no periódico científico internacional Journal of Critical Care.
A investigação e bases de dados utilizadas
A investigação avaliou duas grandes bases de dados nacionais complementares. O registro “UTIs Brasileiras”, que contem 32.016 internações em 357 hospitais públicos e 454 privados. E o banco de dados administrativo do DATASUS, com 11.241 admissões em UTIs públicas do Sistema Único de Saúde (SUS).
Grupos de maior risco e fatores críticos
A mortalidade hospitalar acumulada atingiu 8,2% no registro de UTIs brasileiras e 18,6% na base do DATASUS. O mapeamento identificou três grupos que exigem especial atenção no acompanhamento de casos graves de dengue:
- Idosos: A mortalidade aumentou com a idade, passando de 3,5% entre pacientes de até 40 anos para 14,4% entre aqueles com mais de 65 anos no registro de UTIs. Na base do DATASUS, esse percentual chegou a 30% na mesma faixa etária.
- Pacientes mais vulneráveis e com comorbidades: A mortalidade foi de 17% entre os pacientes considerados frágeis no momento da internação. Esse grupo inclui pessoas que já apresentavam limitações físicas ou problemas de saúde que reduzem a capacidade do corpo de reagir a doenças graves. Além disso, 35% apresentavam pelo menos uma doença crônica ativa.
- Pacientes que desenvolvem comprometimento circulatório grave: Entre aqueles que precisaram de medicamentos para aumentar a pressão arterial (vasopressores) nas primeiras 24 horas de internação em UTI, a mortalidade foi de 55,4%, conforme análise da base de dados UTIs Brasileiras.
Mecanismos de letalidade e importância da avaliação precoce
Sobre os mecanismos que tornam a doença tão letal nesses perfis, a rápida deterioração do sistema circulatório exige atenção imediata aos primeiros sinais. “A dengue costuma ter evolução benigna na maior parte dos casos. Mas na sua manifestação grave o vírus desencadeia uma reação inflamatória e circulatória muito agressiva, levando ao choque. A taxa de mortalidade superior a 50% nos pacientes que precisam de vasopressores nas primeiras horas mostra o quão crítico é esse comprometimento. Em idosos e doentes crônicos, a capacidade de recuperação do organismo é menor, o que favorece a rápida piora do quadro clínico. Por isso, a avaliação médica não pode tardar ao primeiro sinal de alerta. Converter a complexidade da doença em diagnóstico precoce é o que salva vidas”, conforme explica o Dr. Henrique Fonseca, pesquisador da Academic Research Organization (ARO) do Einstein.
Perfis vulneráveis nas primeiras 24 horas
Ao analisar as taxas de mortalidade hospitalar, a pesquisa constatou que quanto mais grave o quadro do paciente no momento da chegada à UTI, maior o risco de óbito. Essa relação é observada especialmente entre aqueles que já necessitam de suporte intensivo imediato na admissão. Indicando assim um nível de criticidade que reduz drasticamente as chances de recuperação.
Os indicadores registrados nas primeiras 24 horas de internação mostram que 5,8% dos pacientes precisaram de ventilação mecânica invasiva. 7,2% receberam medicamentos vasopressores para manter a pressão arterial e 1,7% necessitaram de terapia renal substitutiva (diálise).
Entre os pacientes que precisaram de vasopressores logo no primeiro dia de internação, a mortalidade hospitalar alcançou 55,4%, o maior percentual observado entre os grupos analisados no estudo.
Para os pesquisadores, esses indicadores das primeiras 24 horas funcionam como uma ferramenta valiosa para reconhecer precocemente os perfis mais vulneráveis e antecipar intervenções. “Os dados sugerem que a demora para admitir o paciente na UTI, com sua chegada em um momento de maior gravidade, pode contribuir de forma relevante para um desfecho desfavorável. É por isso que buscamos, com essa pesquisa, gerar inteligência de vida real a partir dos indicadores para que os profissionais consigam reconhecer e agir rapidamente, muito antes de o paciente entrar em choque”, avalia o Dr. Luciano Azevedo, pesquisador da Academic Research Organization (ARO) do Einstein.



