“O Texas talvez nunca mais seja o mesmo”. Essas foram as palavras escolhidas pelo jornal The New York Times, um dos mais influentes do mundo, para descrever o resultado das eleições no estado americano que, até ontem, era um bastião do partido Republicano, do presidente Donald Trump.
As eleições de meio de mandato presidencial, conhecidas como midterms – quando os americanos elegem candidatos para a Câmara dos Representantes, selecionam um terço do Senado (35 de 100 cadeiras) e governadores em alguns estados – trouxe uma derrota para o presidente Trump, que viu o partido de oposição, os Democratas, conquistarem a maioria nas duas Casas do Congresso.
No Texas, Gina Hinojosa fez história ao derrotar o governador Greg Abbott, que já estava no terceiro mandato. Ela se tornará a primeira governadora hispânica do estado.
James Talarico: uma nova voz no Senado do Texas
Outra figura política que se destacou é James Talarico, que se tornou o primeiro democrata a conquistar uma vaga pelo Texas no Senado desde 1988. Ele derrotou Ken Paxton, que contava com o apoio de Trump nas primárias do partido Republicano, superando também o senador John Cornyn.
Talarico, de 37 anos, tem defendido mudanças em políticas de controle de imigração, acesso a medicamentos, uso recreativo da maconha por adultos e direitos humanos. Ele até fez algumas brincadeiras com brasileiros em uma rede social.
Em entrevista ao The New York Times, Garry Mauro, um político democrata do Texas, descreveu o resultado como “um tsunami”. Outros representantes do partido afirmaram que a eleição pode redesenhar o mapa político, “encerrando o papel do Texas como laboratório de leis conservadoras para todo o país”.
Trajetória e crenças
James Talarico nasceu no Texas, estado do sul dos Estados Unidos que faz fronteira com o México e que, por isso, está intimamente ligado a questões de imigração. Ele é deputado estadual desde 2018.
Formado em literatura e língua inglesa, Talarico foi professor em uma escola pública em San Antonio, uma área com uma significativa população mexicana e uma das mais carentes do estado.
Em seu site de campanha, ele menciona que foi criado por sua mãe e que seu pai biológico enfrentava problemas com o álcool, o que, em algumas ocasiões, “levava a atos de violência”. Talarico é seminarista presbiteriano e afirma que sua fé o leva a rejeitar o nacionalismo cristão, comprometendo-se com um projeto democrático em que todas as pessoas possam ser verdadeiramente livres e alcançar seu pleno potencial, independentemente de religião, raça, gênero ou orientação sexual.
Propostas para um novo mandato
Dentre suas propostas ao assumir a senatoria em janeiro de 2027, ele afirma que é crucial retirar o governo das decisões pessoais e privadas dos cidadãos. Como exemplos, ele lista:
- Proteger o acesso a métodos contraceptivos e à fertilização in vitro;
- Garantir a legalidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo e defender a população LGBTQIA+ contra abusos do governo;
- Legalizar a maconha para adultos, “para que as pessoas deixem de ser presas por uma substância que já é legal em metade do país”.
Pontos de vista sobre imigração
Talarico se orgulha de ser da oitava geração de uma família texana: “Minha família vive aqui desde quando o Texas ainda fazia parte do México.” Ele acredita que os texanos têm uma perspectiva mais elaborada sobre imigração, entendendo tanto seus desafios quanto seus benefícios.
Por conta dessa proximidade, ele defende mudanças na política de imigração, especialmente no que se refere ao Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE). No seu plano, ele propõe que a fronteira tenha “um tapete de boas-vindas na entrada e uma fechadura na porta”.
“Podemos acolher o estrangeiro – refugiados, solicitantes de asilo e pessoas que desejam contribuir para nossa economia e buscar o sonho americano – e, ao mesmo tempo, impedir a entrada daqueles que intencionam nos fazer mal”, sustenta o senador eleito. Ele criticou o ICE, afirmando que deveria focar no combate ao crime organizado, e não na perseguição a pequenos empresários e famílias.
Combate aos altos custos de medicamentos
James Talarico, que tem diabetes tipo 1, fez da redução dos custos dos medicamentos prescritos uma de suas bandeiras. No Texas, ele defendeu um projeto de lei que limitava o copagamento da insulina a US$ 25 por mês, além de permitir que o estado importasse medicamentos prescritos mais baratos do Canadá, enquanto combate os preços abusivos das grandes farmacêuticas.
Por uma nova política
Talarico promete lutar contra os “megadoadores bilionários”, que, segundo ele, distorcem o sistema em desfavor das famílias trabalhadoras do Texas. Ele alega ser o único membro da Assembleia Legislativa do Texas a nunca ter aceitado dinheiro de comitês de ação política empresariais.
“A maior divisão neste país não é entre a esquerda e a direita, mas sim entre os que estão no topo e aqueles que estão na base”, diz ele. Segundo Talarico, os poderosos buscam dividir a população para evitar que se unam em busca de seus direitos e do bem-estar coletivo.
Curiosidade sobre o Brasil
Em novembro de 2020, James Talarico causou risadas entre brasileiros ao comentar no X. “Estou viralizando no Brasil agora… Pelo visto, ‘talarico’ é uma gíria brasileira para ‘ladrão de mulheres’. Olá, Brasil! Estou apenas fazendo boas políticas públicas aqui no Texas – prometo que não vou roubar sua namorada”, publicou, acrescentando que a gíria é mencionada em uma música de Zeca Pagodinho.


