Rafhael Borges
O inverno brasileiro costuma ser associado a temperaturas mais baixas, principalmente durante a passagem de massas de ar frio.
Em Goiás, porém, o cenário deste segundo semestre é outro.
O Estado está inserido em uma área que pode enfrentar temperaturas acima da média, períodos prolongados de baixa umidade e aumento do risco de incêndios florestais nos próximos meses.
No dia 10 de agosto, a cidade de Goiás registrou 41,4°C, maior temperatura observada no Brasil naquele dia pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). São Miguel do Araguaia chegou a 41,1°C e Aragarças marcou 40,1°C.
Ao mesmo tempo, a umidade relativa do ar chegou a apenas 12% na cidade de Goiás, enquanto Goiânia registrou 13%. O episódio não é isolado.
Por trás do calor está um fenômeno climático que voltou a preocupar os órgãos de monitoramento: o El Niño.
O fenômeno está de volta
Em junho, o Inmet confirmou que as condições do El Niño já estavam presentes no Oceano Pacífico Equatorial.
Os modelos apontam que o fenômeno deve persistir até o verão de 2026/2027 e pode atingir intensidade forte durante a primavera.
Um boletim conjunto de Inmet, Inpe, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil apontou ainda probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027.
Para o trimestre julho-agosto-setembro, a previsão indicava chuvas abaixo da média no centro-norte do país e temperaturas acima da média em grande parte do território brasileiro.
Goiás está justamente em uma das regiões que merecem atenção.
Por que o El Niño importa para Goiás?
O El Niño não significa simplesmente “mais calor”.
O fenômeno altera padrões de circulação atmosférica e pode mudar a distribuição de chuva e temperatura em diferentes regiões.
No Centro-Oeste, uma das preocupações é a combinação entre calor elevado e períodos mais secos.
Essa combinação afeta diretamente a vegetação.
Pois quanto menor a umidade do solo e do ar, mais facilmente a vegetação seca se transforma em combustível para incêndios.
O risco aumenta ainda mais quando aparecem ventos fortes.
É o chamado ambiente favorável à rápida propagação do fogo.
Goiás já está se preparando
O Governo de Goiás criou, em março de 2026, um novo Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, das Queimadas e dos Incêndios Florestais.
O documento estabelece ações para prevenir e monitorar queimadas, fortalecer a fiscalização, melhorar a resposta aos incêndios, assim como ampliar a cooperação entre órgãos públicos.
O Estado também mantém o Monitor de Queimadas, ferramenta que utiliza imagens de satélite para identificar focos e enviar alertas às equipes responsáveis.
De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), o sistema ajudou a reduzir em 60% a área atingida pelo fogo entre 2021 e 2023.
A lógica é simples: detectar rapidamente pode significar impedir que um pequeno foco se transforme em um incêndio de grandes proporções.
O fogo não começa sozinho
Embora as condições climáticas favoreçam a propagação das chamas, existe outro fator decisivo: a ação humana.
Queimar lixo, limpar terrenos com fogo, colocar fogo em pastagens ou utilizar queimadas sem autorização pode transformar uma ação aparentemente pequena em uma ocorrência de grandes proporções.
O problema se agrava quando o ambiente está seco.
Uma faísca que, em uma época chuvosa, provavelmente desapareceria rapidamente pode se transformar em um incêndio quando encontra vegetação ressecada, baixa umidade e vento.
Por isso, prevenção é tão importante quanto combate.
O risco também chega à saúde
O problema não termina quando as chamas estão longe.
A fumaça produzida pelas queimadas contém material particulado e outros poluentes que podem comprometer a qualidade do ar.
Crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios estão entre os grupos que podem sofrer mais durante períodos de baixa qualidade do ar.
O Ministério da Saúde criou, inclusive, estruturas específicas para monitorar a relação entre clima e saúde.
O Centro de Informação em Saúde e Clima, que passou a operar em Porto Alegre, utiliza indicadores climáticos para apoiar ações de vigilância e assistência em situações de calor extremo, enchentes, incêndios e outros eventos relacionados ao clima.
A criação desse tipo de estrutura revela uma mudança importante na forma como o país encara os eventos climáticos.
Não se trata mais apenas de prever chuva ou temperatura.
É necessário prever consequências para a saúde da população.
O calor também afeta a economia
Agricultura e pecuária estão entre os setores mais sensíveis às alterações climáticas.
O próprio Inmet aponta que temperaturas elevadas podem afetar pastagens e a preparação da próxima safra no Centro-Oeste.
Isso significa que uma temporada mais quente e seca pode produzir efeitos que chegam muito além do desconforto térmico.
Menos água disponível pode afetar lavouras.
Calor excessivo pode prejudicar animais.
Incêndios podem destruir pastagens, plantações e áreas de preservação.
E períodos de seca podem aumentar a pressão sobre recursos hídricos.
É uma cadeia de impactos.
O risco de incêndios não está concentrado em uma única região
O novo plano estadual de prevenção mostra a dimensão do problema.
Na série histórica de focos de calor analisada pelo Governo de Goiás, 2007 e 2010 aparecem entre os anos com maiores registros desde 1998.
Em 2024, o Estado contabilizou 6.247 focos de calor.
Os números mostram que incêndios florestais não são um fenômeno excepcional.
Eles fazem parte do desafio climático enfrentado pelo Cerrado.
A diferença é que temperaturas mais altas e períodos de estiagem podem aumentar a velocidade com que o problema se desenvolve.
Comunidades também estão sendo envolvidas
Uma das estratégias adotadas por Goiás é levar a prevenção para mais perto das comunidades.
Em 2026, o Governo do Estado abriu 180 vagas para o projeto-piloto de Pagamento por Serviços Ambientais voltado a brigadas comunitárias.
A iniciativa contempla seis municípios do Nordeste goiano: Colinas do Sul, Alto Paraíso, Cavalcante, Teresina de Goiás, São Domingos e Nova Roma.
A região foi escolhida por concentrar um dos maiores remanescentes de vegetação preservada do Estado.
A ideia é criar um modelo em que moradores também sejam parte da proteção do território.
Essa estratégia muda o conceito de combate ao fogo.
Em vez de esperar o incêndio começar para mobilizar equipes, a política busca preparar as comunidades antes da ocorrência.
O que a população pode fazer
Durante períodos de calor intenso, baixa umidade e risco elevado de incêndios, algumas atitudes ganham importância.
A principal é não utilizar fogo para eliminar lixo, folhas, entulho ou vegetação.
Também é importante evitar atividades que possam produzir faíscas em áreas de vegetação seca.
Em dias de umidade muito baixa, recomenda-se atenção especial à hidratação e à exposição prolongada ao sol.
Para quem vive em regiões afetadas por fumaça, acompanhar os alertas oficiais de qualidade do ar também é importante.
Em caso de incêndio, a orientação é não tentar combater sozinho uma ocorrência que esteja fora de controle.
Um alerta para os próximos meses
O cenário climático previsto para o segundo semestre não significa que Goiás terá necessariamente uma sequência contínua de dias extremos.
Fenômenos como o El Niño influenciam o clima, mas não determinam isoladamente o tempo de cada município.
É justamente por isso que os órgãos de meteorologia reforçam a necessidade de acompanhar as atualizações.
O Inmet vem publicando boletins semanais, enquanto órgãos como Inpe, Cemaden e os sistemas estaduais acompanham temperatura, chuva, umidade, rios e focos de calor.
Na prática, o alerta para Goiás é menos sobre um dia específico e mais sobre uma temporada.
O Estado entra nos próximos meses diante de uma combinação que exige atenção: calor acima da média, baixa umidade, possibilidade de estiagem e maior risco de incêndios.
E o primeiro sinal já apareceu nos termômetros.
Em 10 de agosto, Goiás marcou 41,4°C e registrou a maior temperatura do Brasil naquele dia.
O número impressiona.
Mas, para meteorologistas e órgãos de prevenção, mais importante do que o recorde é entender o que ele representa.
O clima está mudando.
E, diante de um El Niño que pode ganhar força nos próximos meses, a diferença entre enfrentar um evento extremo e sofrer uma crise pode estar na capacidade de prever, prevenir e agir antes que o problema aconteça.





