No dia 13 de julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa mais um ano como principal marco legal de proteção à infância e à adolescência no Brasil. A data reacende uma discussão que ganhou novos contornos com a internet, mas que não nasceu com ela: a exposição de crianças e adolescentes na mídia.
Antes das redes sociais, a imagem de menores já era explorada em programas de televisão, concursos, comerciais, novelas e produções voltadas ao entretenimento. Hoje, com a presença digital cada vez mais forte, esse fenômeno se ampliou para perfis familiares, vídeos de rotina, publicidade infantil, influenciadores mirins e conteúdos compartilhados por pais e responsáveis.
O problema, segundo especialistas, é que a exposição precoce pode atravessar a infância e deixar marcas na autoestima, na percepção de identidade, na relação com o corpo e até na vida adulta. A criança, muitas vezes, passa a ser vista como personagem, produto ou fonte de engajamento antes mesmo de ter maturidade para compreender o alcance da própria imagem.
Impactos na saúde mental
Para a psicóloga clínica Soraya Oliveira, que atende no centro clínico Órion Complex, em Goiânia, proteger crianças e adolescentes também significa cuidar da saúde mental e da privacidade no ambiente digital. “A exposição precoce pode gerar ansiedade, insegurança, necessidade constante de aprovação, medo de críticas e perda da privacidade. Além disso, aumenta o risco de cyberbullying e pode comprometer o desenvolvimento emocional”, explica.
Casos que ampliam o debate
Experiências de artistas que começaram a trabalhar ainda na infância ajudaram a ampliar o debate sobre os efeitos da exposição precoce. Um dos casos mais conhecidos é o da atriz norte-americana Jennette McCurdy que, entre outros papéis, interpretou Sam Puckett nas séries iCarly e Sam & Cat, da Nickelodeon. No livro de memórias “Estou feliz que minha mãe morreu”, ela conta que iniciou a carreira ainda criança por incentivo da mãe e que, mesmo quando demonstrou não querer mais atuar, sentiu-se pressionada a continuar.
Na obra, Jennette relata uma rotina marcada pelo controle da vida pessoal e profissional, pela preocupação constante com a aparência e por transtornos alimentares. A atriz deixou a atuação em 2017 e passou a se dedicar à escrita e à direção. Sua trajetória mostra como o sucesso e o reconhecimento público podem esconder sofrimento emocional, perda de autonomia e dificuldades para construir uma identidade desvinculada da imagem criada para o entretenimento.
No Brasil, a atriz Larissa Manoela também ampliou a discussão sobre os limites da gestão familiar na carreira de artistas mirins. A atriz começou a trabalhar aos 4 anos e ganhou projeção nacional ao interpretar a personagem Maria Joaquina no remake da novela “Carrossel”, do SBT.
Diante de divergências sobre a gestão das empresas e do patrimônio construído ao longo de 18 anos de trabalho, Larissa, em 2023, já adulta, decidiu assumir o controle de sua vida financeira e profissional. As declarações dela foram contestadas pelos pais, trazendo à tona questões importantes sobre autonomia, acesso às informações financeiras e participação de crianças e adolescentes nas decisões relacionadas ao próprio trabalho e à própria imagem. Essa situação evidencia que os efeitos desse tipo de relação podem se prolongar até a vida adulta.
Uma questão além da fama
A preocupação, no entanto, não está apenas na fama. Também envolve crianças anônimas que têm fotos, vídeos, intimidade, rotina escolar, momentos de choro, broncas ou situações constrangedoras compartilhados nas redes sociais. Mesmo quando a intenção da família é afetuosa, esse conteúdo pode permanecer disponível por anos e afetar a forma como a criança será vista por colegas, familiares, escolas e, no futuro, até no ambiente profissional.
“Fazer registros de momentos especiais pode fazer parte da história da família. O excesso acontece quando a vida da criança é compartilhada de forma constante, inapropriada, sem respeitar sua privacidade, seus limites ou seu direito de não querer aparecer ou mesmo de se expor”, afirma Soraya.
Uso da internet e sinais de alerta
Dados da TIC Kids Online Brasil 2025 mostram que 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos são usuários de internet, representando cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes. A pesquisa também aponta que o primeiro acesso à rede tem ocorrido cada vez mais cedo: 28% dos entrevistados relataram ter acessado a internet pela primeira vez até os 6 anos de idade.
Para a psicóloga, esse cenário exige mais atenção dos adultos. A discussão não deve ser apenas sobre proibir o uso de telas, mas sobre proteger a privacidade, respeitar o tempo de desenvolvimento e evitar que a criança se transforme em conteúdo. “Quando a criança cresce buscando validação por curtidas e comentários, pode desenvolver uma autoestima frágil e dificuldade para construir sua própria identidade. Na vida adulta, isso pode gerar insegurança, dependência da aprovação e dificuldades nos relacionamentos”, explica.
Segundo Soraya, alguns sinais de alerta podem indicar que a exposição ou o uso das redes está afetando o bem-estar emocional de crianças e adolescentes. “Mudanças de humor, ansiedade, tristeza, frustração, isolamento, preocupação exagerada com aparência, número de seguidores ou curtidas, além de irritação quando não consegue acessar as redes, merecem atenção”, orienta.
Para a psicóloga, a proteção da infância começa nas escolhas cotidianas dos adultos, inclusive nas redes sociais. “Priorize a segurança, respeite a privacidade. Nem tudo que é vivido em família precisa ser publicado. Algumas das memórias mais importantes são aquelas que permanecem protegidas no coração. O vínculo afetivo é mais importante do que qualquer postagem. A proteção da infância começa nas pequenas escolhas que fazemos todos os dias, inclusive nas redes sociais”, conclui.




