Rafhael Borges
O celular vibra, a notificação aparece e a promessa parece irresistível: ganhar dinheiro rápido sem sair de casa. As apostas online deixaram de ser apenas entretenimento e passaram a ocupar espaço crescente no orçamento das famílias brasileiras. Agora, especialistas alertam para um novo problema social: o avanço do endividamento ligado às bets.
Uma pesquisa do Procon-SP revelou que quatro em cada dez apostadores brasileiros se endividaram após começarem a apostar online.
O levantamento ouviu 2.724 consumidores entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.
Apostas já pressionam orçamento das famílias
De acordo com o estudo, 30% dos entrevistados afirmaram gastar mais de R$ 1 mil por mês com apostas esportivas.
O perfil predominante dos apostadores inclui:
- homens;
- jovens adultos;
- pessoas com renda de até dois salários mínimos.
Economistas afirmam que o problema deixou de ser individual e passou a impactar a economia.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que 80,4% das famílias brasileiras já estão endividadas.
Especialistas afirmam que parte desse crescimento está assim relacionada ao avanço das apostas digitais.
A ilusão da renda rápida
O problema ganhou força principalmente entre jovens.
Especialistas afirmam que muitos brasileiros passaram a enxergar as bets como complemento de renda, especialmente em um cenário de inflação, desemprego e dificuldade financeira.
“O apostador se ilude ao acreditar que encontrará no jogo a solução para seus problemas financeiros”, conforme alertou o diretor do Procon de Jundiaí, Marcelo Canale.
Pesquisas recentes mostram que 59% dos brasileiros acreditam que as bets provocam endividamento, enquanto 61,9% associam as plataformas ao vício.
O impacto invisível dentro de casa
Psicólogos explicam que as plataformas utilizam mecanismos semelhantes aos das redes sociais:
- recompensas rápidas;
- estímulos constantes;
- sensação de urgência;
- promessas de recuperação imediata das perdas.
A lógica emocional faz com que muitos apostadores tentem recuperar o dinheiro perdido com novas apostas, ampliando ainda mais as dívidas.
Especialistas em saúde mental alertam para o crescimento da ludopatia — o vício em jogos — principalmente entre jovens adultos.
Bilhões saem da economia real
Estudos recentes apontam que as apostas online retiraram bilhões de reais do consumo tradicional brasileiro nos últimos anos.
Estimativas citadas por entidades econômicas indicam que cerca de R$ 143 bilhões migraram do varejo para plataformas de apostas entre 2023 e 2026.
Especialistas afirmam que o dinheiro que antes circulava em alimentação, lazer e comércio local agora é assim direcionado para aplicativos de apostas.
A discussão sobre regulação
Com o crescimento acelerado do setor, o governo federal ampliou as discussões sobre fiscalização, publicidade e responsabilidade das plataformas.
Entidades de defesa do consumidor defendem:
- limites de publicidade;
- alertas obrigatórios;
- controle de acesso para menores;
- campanhas de conscientização;
- mecanismos de proteção contra vício.
Enquanto isso, o mercado das bets segue crescendo em ritmo acelerado no Brasil.
E, para milhares de famílias, a promessa de lucro rápido já começou a se transformar em uma nova armadilha financeira.


