A especialista explica que, durante meses, a mulher enfrenta uma nova rotina com hospital, médicos e exames. “Consultas e pessoas sempre por perto, acompanhando sua saúde. Quando a quimioterapia e a radioterapia terminam, esse contato diminui e se inicia uma nova etapa. Uma fase repleta de incertezas, medo da doença voltar e transformação da própria vida”, afirma Laís à Agência Brasil.
Segundo ela, assim como o acompanhamento médico permanece importante, o suporte emocional também pode ser essencial, respeitando o ritmo de cada mulher e ajudando-a a reconstruir a confiança em sua vida, mesmo sem a possibilidade de eliminar todas as incertezas.
O impacto da doença no cotidiano feminino
“A última sessão de quimioterapia ou radioterapia pode marcar o fim de um tratamento, mas não o cuidado com essa mulher, que ainda necessita continuar”, enfatiza a especialista.
De acordo com a psicóloga, muitos familiares e amigos se afastam para retomar suas rotinas e a mulher, temendo a recidiva da doença, acaba se sentindo marcada pelo medo da solidão.
“Os exames de acompanhamento podem despertar medo, e qualquer alteração ou dor pode ser interpretada como reincidência da doença. Essa mulher ainda precisa de apoio”, diz Laís.
Ela observa que muitas pacientes continuam usando medicação por até cinco anos e enfrentam fadiga, além de outros efeitos desse tratamento de acompanhamento. “O corpo dessa mulher mudou. Ela tem cicatrizes, às vezes perdeu uma mama ou ganhou uma nova que ainda não se identifica. A sexualidade pode mudar, assim como a intimidade com o parceiro, e a disposição para as atividades diárias pode diminuir, afetando também a vida sexual”, afirma.
“Essas mudanças podem impactar a autoestima, o desejo, a sensação de atratividade e a maneira como essa mulher se reconhece no espelho, repercutindo em dimensões mais amplas da sexualidade, como o toque, a espontaneidade, a confiança e a disponibilidade para o vínculo íntimo”, acrescenta.
Desafios enfrentados na luta contra o câncer de mama
Renata Reis Pinto, médica mastologista e radiologista do Instituto Nacional de Câncer (Inca), também destaca que o câncer de mama ainda carrega muitos estigmas. “Na prática clínica, a doença é frequentemente vista como uma sentença de morte, trazendo muitas dúvidas e medo sobre como será a evolução e os desafios que a paciente terá de enfrentar diante do diagnóstico,” explica.
Para Renata, proporcionar um suporte adequado para que a paciente aborde suas questões é crucial para o sucesso do tratamento. “É fundamental oferecer a ela um tratamento multidisciplinar, com uma assistente social que possa auxiliar em questões logísticas, como onde deixar o filho enquanto está em tratamento e questões sociais ligadas ao trabalho. Além disso, a psico-oncologia é essencial para identificar até que ponto esse medo se torna tão intenso que a paciente possa necessitar de medicação”, afirma Renata à Agência Brasil.
Experiências de vida e a luta contra o câncer
Josiane Fernandes, 48 anos, de Volta Redonda, no sul fluminense, descobriu o câncer de mama no início de 2025, ao notar um nódulo na mama esquerda. Em março do ano passado, ela confirmou o diagnóstico e começou o tratamento.
“Eu não contei para ninguém. Eu sofri sozinha. Só contei para meu marido depois de fazer a biópsia. Meu tratamento, que incluiu cirurgia, quimioterapia e imunoterapia, durou cerca de um ano e três meses. Eu entrei em depressão e precisei de tratamento”, conta.
Após o fim do tratamento, Josiane continua o acompanhamento médico. “O tratamento pode terminar, mas o medo nem sempre termina junto. Até hoje, em uma consulta de rotina, em um exame, eu entro em pânico. Parece que volta tudo o que eu vivi. As pessoas que passam por um câncer deveriam ter um cuidado no pós-tratamento. Existe vida depois do câncer, mas essa vida precisa ser reconstruída”, completa Josiane.
Conforme estimativa do Inca para este ano, o tumor mais incidente entre as mulheres é o de mama, representando 30% dos casos. O número estimado de casos novos da doença no Brasil para cada ano do triênio de 2026 a 2028 é de 78.610, com um risco de 71,57 casos novos para cada 100 mil mulheres.

