Eleições para o Senado têm histórico de surpresas e reviravoltas na reta final

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Eduardo Sartorato

Nas eleições de outubro próximo, o eleitorado de todo o Brasil escolherá quatro nomes entre os candidatos da disputa majoritária – um voto para presidente da República, um para governador e dois para o Senado. Cada eleição tem a sua própria história, e essa varia de acordo com a cultura política de cada Estado da federação. Algumas são mais apertadas, outras mais previsíveis. A disputa pelas cadeiras do Senado, porém, quase sempre é marcada por um alto nível de imprevisibilidade, até que os votos estejam registrados nas urnas. Isso torna a eleição para a Câmara Alta do Parlamento brasileiro, geralmente, a mais emocionante entre essas três.

Em Goiás, a maioria das disputas para o Senado teve altos níveis de emoção na reta final, muitas delas com mudanças dos eleitos em relação aos favoritos apontados pelas pesquisas realizadas dias antes dos pleitos. Talvez a mais sintomática tenha sido a de quatro anos atrás, quando o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) tinha quase o dobro das intenções de voto do segundo colocado no final de setembro, segundo pesquisas, e foi derrotado no fim. O eleito foi o senador Wilder Morais (PL).

Marconi liderava em 2022, mas terminou em segundo

Segundo a pesquisa Serpes, divulgada pelo jornal O Popular no dia 24 de setembro de 2022, oito dias antes do primeiro turno das eleições, Marconi Perillo tinha 25,3% das intenções de voto. O então deputado federal Delegado Waldir (UB) aparecia em segundo, com 13% da preferência do eleitor. Wilder estava em terceiro com apenas 11,1%. O instituto repetiu a pesquisa uma semana depois, e os números permaneceram praticamente os mesmos, variando dentro da margem de erro de 3,5 pontos porcentuais para mais ou para menos.

Quando as urnas foram abertas, o resultado final apontou vitória de Wilder Morais com 25,25% dos votos válidos; Marconi em segundo, com 19,8%; e Delegado Waldir em terceiro, com 17,04%. Wilder acabou conquistando a única vaga em disputa naquelas eleições, em um resultado que surpreendeu o mundo político goiano.

A explicação mais comum deste fenômeno, segundo cientistas e analistas políticos, no geral, foi a definição de voto de última hora e a força do bolsonarismo na reta final da disputa, lembrando que Wilder era apoiado pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL). De fato, a Serpes trouxe números muito altos de indecisão nas duas pesquisas citadas acima, ambas na casa dos 20%, o que dá argumentos para essa análise. Esse número, poucos dias antes da eleição, é considerado altíssimo, e geralmente não se repete em disputas para presidente ou governo.

Eleitor deixa para decidir voto ao Senado nos últimos dias

O quadro, porém, não foi um fenômeno isolado, próprio das eleições de 2022. De uma maneira geral, o eleitor define primeiro os votos para o Executivo – presidente e governador – e deixa a decisão sobre os parlamentares para a última hora. O cargo de senador é o único cargo parlamentar eleito por meio majoritário, ou seja, em que o eleitor vota e os mais votados são eleitos, sem depender de proporção representativa.

Outra característica é que, apesar de ser majoritária, a disputa pelo Senado não tem segundo turno. Soma-se ainda o fato de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) liberou, nas últimas eleições, que cada partido possa lançar seus candidatos, caso haja esse desejo. Antes era permitido apenas um ou dois por coligação, a depender do número de vagas disputadas. Isso fez com que a quantidade de pretendentes aumentasse nos últimos pleitos.

Mais candidatos, ausência de um segundo turno e eleitor decidindo o voto nos últimos dias (muitos nas últimas horas) formam uma equação que pode explicar esse movimento agudo entre os números das últimas pesquisas eleitorais e o resultado que sai das urnas, no dia das eleições.

Em 2018, tucanos desidrataram na reta decisiva

Outro exemplo disso foi a eleição de 2018, quando Marconi também liderava até a reta final. Segundo pesquisa Ibope, divulgada em 21 de setembro de 2018, o tucano tinha 29% das intenções de voto, enquanto o senador Jorge Kajuru (ex-PRP) e o senador Vanderlan Cardoso (ex-PP) estavam com 28%. Na quarta posição, a então senadora Lúcia Vânia (ex-PSDB) aparecia com 26%.

A diferença entre os quatro primeiros colocados era pequena e os números mostravam que o resultado seria apertado. As duas vagas disponíveis naquele ano, porém, aumentavam, ainda mais, a expectativa de eleição, principalmente de Marconi que liderou a corrida praticamente durante todo o período eleitoral.

Quando as urnas foram abertas, o resultado surpreendeu. Talvez menos pelos eleitos, mas mais pelos porcentuais. Os números das pesquisas mostravam que Vanderlan e Kajuru tinham, de fato, ganhado fôlego na reta final. O ex-prefeito de Senador Canedo terminou em primeiro com 31,35%, enquanto que o radialista foi eleito em segundo, com 28,23%.

A partir daí, a surpresa foi maior. Na terceira posição, ficou o senador Wilder Morais (ex-DEM), com 14,43%, com uma ótima arrancada nos dias anteriores da campanha – na pesquisa Ibope citada acima, ele tinha apenas 6% das intenções de voto. Seu desempenho foi uma surpresa de reta final, que as pesquisas tiveram dificuldade de captar. E Marconi e Lúcia? A ex-senadora terminou em quarto com 9,42% e o ex-governador em quinto com apenas 7,37%. Ambos derreteram nos últimos dias.

Iris já perdeu cadeira no Senado com movimentação final

Duas outras eleições mais antigas ainda podem ser citadas também como exemplo dessas variações agudas de reta final pelo eleitorado. Em 2002, poucos apostavam na derrota do então senador Iris Rezende (PMDB), mas ela ocorreu. A então deputada federal Lúcia Vânia superou o peemedebista nos últimos dias e venceu por uma diferença de menos de 10 mil votos. Outra surpresa daquele ano, também consolidada na reta final, foi o recorde de Demóstenes Torres (ex-PFL), que ultrapassou 1,2 milhão de votos em sua primeira experiência com as urnas.

Em 2014, a reta final não mudou o eleito, mas deixou o resultado final muito mais apertado do que se esperava. Com apenas uma vaga em jogo, o cenário há quatro dias antes da eleição, segundo pesquisa Ibope, mostrava o então deputado federal Ronaldo Caiado (ex-DEM) com 39% das intenções de votos, e o também deputado federal à época Vilma Rocha (PSD) com 17%. Os resultados das urnas, porém, se mostraram muito mais apertados; Caiado venceu com 47,57% e Vilmar teve 37,52%. O pessedista conseguiu uma arrancada muito positiva nos últimos dias, ainda que insuficiente para conquistar a vaga.

E como será em 2026?

Em 2026, o grande número de candidatos, a pequena diferença entre a maioria deles e o fato de ter duas vagas em jogo (que acaba por estimular postulantes) mostram que a disputa promete ser, mais uma vez, apertada até o final. A cultura de definição do voto na reta final da campanha preocupa os mais favoritos, assim como dá esperanças a nomes novos, que não aparecem entre os primeiros colocados nas pesquisas atuais.

A ex-primeira-dama Gracinha Caiado é a grande favorita para uma das vagas. Segundo a pesquisa Real Time / Big Data do início de julho, ela lidera com 26% das intenções de voto no principal cenário. Para a segunda vaga, pelo menos quatro nomes aparecem na disputa – o deputado federal Gustavo Gayer (PL) com 15%, o ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (PRD) com 13%, o deputado federal Zacharias Calil (MDB) com 12%, e o senador Vanderlan Cardoso (PSD) com 9%.

No meio político, é comum a análise de que Gracinha será eleita na primeira vaga, e que a segunda terá disputa até o final. A grande incógnita da disputa, quando há duas vagas, é que o eleitor também vota em dois nomes, diferentemente de qualquer outro cargo majoritário ou proporcional. Se, muitas vezes, o eleitor deixa para decidir o primeiro nome para o Senado na reta final, o segundo ainda é muito mais volátil. E esse cenário é o que deve manter a emoção da disputa, mais uma vez, até o final.