Feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão persistente, dificuldade para engolir e caroços no pescoço podem parecer alterações simples, mas estes sinais exigem atenção quando se mantêm por algumas semanas. Durante o Julho Verde, uma campanha nacional de conscientização e combate ao câncer de cabeça e pescoço, especialistas reforçam a importância de reconhecer esses sinais e buscar avaliação médica ou odontológica.
A estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), divulgada em fevereiro de 2026, aponta que o Brasil deverá registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026-2028. Entre os tumores associados à região da cabeça e do pescoço, são esperados anualmente 17.190 casos de câncer da cavidade oral, 16.450 de tireoide e 8.510 de laringe, totalizando mais de 42 mil diagnósticos por ano.
Dados de Goiás e a necessidade de informação
Em Goiás, a previsão para 2026 é de 570 novos casos de câncer da cavidade oral, 650 de tireoide e 270 de laringe. Esses números reforçam a necessidade de ampliar o acesso da população a informações sobre prevenção, sinais de alerta e diagnóstico precoce.
O oncologista Eliseu José Fleury Taveira, que atende no Órion Complex, em Goiânia, explica que a denominação “câncer de cabeça e pescoço” abrange diferentes tipos de tumores. “Câncer de cabeça e pescoço é um grupo de tumores que acomete boca, língua, garganta (faringe e laringe), glândulas salivares e seios da face. No Brasil, os mais frequentes são o câncer de boca, o de laringe e o de faringe – este último com número crescente de casos ligados ao HPV. Mais de 90% são carcinomas de células escamosas, que nascem do revestimento dessas mucosas,” destaca o especialista.
Importância da detecção de sintomas persistentes
Por atingir regiões diretamente relacionadas à fala, à respiração e à alimentação, a doença pode comprometer significativamente a qualidade de vida, principalmente quando descoberta em estágio avançado.
Um dos principais desafios no combate à enfermidade é o diagnóstico tardio. Pesquisa divulgada pelo INCA em 2025, baseada na análise de mais de 145 mil registros hospitalares de câncer de todas as regiões do país, revelou que 78,2% dos casos analisados foram identificados nos estágios III ou IV. A maior proporção de tumores avançados foi observada na hipofaringe, seguida pela orofaringe, cavidade oral e laringe.
Segundo o oncologista, o tempo de duração dos sintomas é crucial para indicar quando procurar ajuda. “A palavra-chave é persistência: qualquer sintoma que não melhora em 2 a 3 semanas precisa ser avaliado. Os principais são: ferida na boca ou no lábio que não cicatriza, mancha branca ou avermelhada na boca, língua ou gengiva, rouquidão ou mudança na voz que não passa, dor ou dificuldade para engolir, caroço ou íngua no pescoço que não desaparece, dor de garganta persistente ou sensação de ‘algo preso’, sangramento sem causa aparente na boca ou nariz. A mensagem é simples: não é normal um sintoma desses durar semanas,” alerta o médico.
Fatores de risco e prevenção
A orientação é não esperar que a alteração cause dor intensa ou comprometa significativamente as atividades diárias para buscar atendimento. Lesões visíveis na boca também podem ser inicialmente identificadas durante consultas odontológicas de rotina.
O tabagismo continua sendo o principal fator de risco isolado para os tumores de cabeça e pescoço. O consumo de bebidas alcoólicas também está ligado à doença, especialmente quando associado ao uso do cigarro. A infecção pelo papilomavírus humano (HPV) tem ganhado relevância principalmente nos casos de câncer de orofaringe.
A prevenção está na adoção de hábitos saudáveis, cuidados com a saúde bucal e redução da exposição aos principais fatores de risco. Entre as medidas recomendadas estão não fumar, evitar ou reduzir o consumo de álcool, manter a vacinação contra o HPV em dia, proteger os lábios da exposição solar e realizar acompanhamento regular com médicos e dentistas.
Consequências da descoberta tardia
O estágio em que a doença é identificada influencia diretamente as possibilidades de tratamento, as chances de cura e a preservação de funções essenciais. Casos iniciais podem exigir procedimentos menos intensos, enquanto tumores avançados frequentemente requerem tratamentos combinados e podem causar impactos maiores na fala, na deglutição e na respiração.
“Porque muda completamente o prognóstico. Descobertos cedo, esses tumores têm altas taxas de cura, muitas vezes com tratamento mais simples, só cirurgia ou radioterapia localizada. Em estágios avançados, a chance de cura cai de forma importante e o tratamento se torna mais intenso, com impacto maior em funções essenciais como falar, engolir e respirar. Ou seja: quanto mais cedo, maior a cura e menor a sequela,” esclarece o especialista.
Durante o Julho Verde, o alerta é para que sinais persistentes não sejam ignorados. Informação, prevenção e acesso oportuno à avaliação especializada podem aumentar as chances de sucesso no tratamento e preservar a qualidade de vida dos pacientes. “A maioria desses cânceres é evitável, e quase todos os sinais aparecem em locais que dá para ver e sentir. Prevenir e procurar ajuda cedo salva vidas e preserva funções tão importantes quanto falar e comer,” conclui Eliseu.



