Rafhael Borges
O trabalho deixou de caber em uma única ocupação para uma parcela dos brasileiros. Em 2025, cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos ou plataformas digitais de serviços no país, considerando tanto a atividade principal quanto a secundária. O número equivale a 1,9% da população ocupada e mostra como novas formas de trabalho passaram a integrar a realidade do mercado brasileiro.
Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em setembro de 2026. Pela primeira vez, o levantamento incorporou de forma mais ampla o trabalho secundário e também investigou plataformas de comércio eletrônico.
A expansão das plataformas, porém, é apenas uma parte de um fenômeno maior: a busca por alternativas para aumentar a renda. Para muitos trabalhadores, a chamada “renda extra” deixou de ser apenas uma atividade ocasional e passou a funcionar como complemento permanente do orçamento.
Aplicativo já é fonte de renda para milhões
Dos cerca de 2 milhões de trabalhadores que utilizaram plataformas digitais em 2025, 1,8 milhão tinham esse trabalho como ocupação principal, enquanto aproximadamente 182 mil utilizavam os aplicativos como atividade secundária. Outros 28 mil combinavam o uso de plataformas no trabalho principal e no secundário.
O levantamento também mostra a diversidade desse mercado.
O transporte de passageiros concentrava 1,2 milhão de trabalhadores, ou 58,9% do total de pessoas que trabalhavam por meio de aplicativos. Já os aplicativos de entrega de comida e produtos eram utilizados por 585 mil pessoas, enquanto plataformas de serviços gerais ou profissionais reuniam 313 mil trabalhadores.
No caso dos entregadores, houve crescimento de 18,6% entre 2024 e 2025, segundo o IBGE. Considerando apenas aqueles que tinham a atividade como trabalho principal, o número passou de 274 mil para 325 mil pessoas.
A renda extra nem sempre é apenas uma renda extra
Um dos dados mais interessantes da pesquisa aparece quando o IBGE pergunta por que as pessoas escolheram trabalhar por meio das plataformas.
Entre os trabalhadores que tinham os aplicativos como atividade principal, 26,8% apontaram a flexibilidade como principal motivo. Outros 24,6% disseram que não conseguiram encontrar outro trabalho, enquanto 20,8% afirmaram considerar o rendimento superior ao de outras ocupações disponíveis.
O complemento de renda apareceu como principal motivação para 16,6% dos entrevistados.
Os números ajudam a explicar por que a expressão “renda extra” pode ser enganosa em determinados casos. Para uma parcela dos trabalhadores, o dinheiro obtido fora de um emprego tradicional não representa apenas um ganho adicional, mas uma parte importante da renda mensal.
Trabalhar mais horas não significa necessariamente ganhar mais
O levantamento do IBGE também coloca em perspectiva uma questão importante para quem busca uma segunda fonte de renda: quanto efetivamente vale o tempo dedicado à atividade?
Em 2025, trabalhadores plataformizados receberam rendimento médio mensal de R$ 3.147, praticamente o mesmo valor registrado entre os trabalhadores não plataformizados do setor privado, de R$ 3.148.
A diferença aparece quando se considera a jornada.
Os trabalhadores por plataformas trabalhavam, em média, 44,7 horas por semana, enquanto os demais ocupados trabalhavam 39,3 horas. São 5,4 horas a mais por semana.
Por isso, o rendimento médio por hora dos plataformizados ficou em R$ 16,20, contra R$ 18,40 entre os não plataformizados — uma diferença de 12%.
Isso significa que comparar apenas o valor recebido no fim do mês pode esconder parte da realidade. Combustível, manutenção de veículo, equipamentos, taxas, alimentação e tempo de deslocamento também precisam ser considerados quando alguém decide transformar uma atividade complementar em fonte de renda.
A informalidade continua sendo um desafio
Entre os trabalhadores por aplicativos, 72,1% estavam em situação de informalidade em 2025, segundo o IBGE. Entre os trabalhadores não plataformizados do setor privado, a taxa era de 42,7%.
A diferença também aparece na proteção previdenciária. Apenas 34% dos trabalhadores plataformizados contribuíam para algum instituto oficial de previdência, contra 63% dos não plataformizados.
O cenário mostra que aumentar a renda por meio de uma atividade autônoma pode vir acompanhado de uma questão menos visível: a necessidade de planejar a própria proteção social.
Vendas pela internet também entram nessa conta
A busca por renda adicional não acontece apenas nos aplicativos de transporte ou entrega.
A pesquisa do IBGE passou a investigar também o trabalho relacionado a plataformas de comércio eletrônico. Entre os trabalhadores classificados como comerciantes plataformizados, o rendimento médio mensal foi de R$ 4.932, contra R$ 3.415 entre os comerciantes não plataformizados.
A diferença foi de 44,4%. Entretanto, o levantamento também mostra que 31,3% desses comerciantes vendiam seus produtos exclusivamente por plataformas de comércio eletrônico.
Na prática, isso significa que a internet passou a funcionar não apenas como ferramenta de divulgação, mas como parte da própria estrutura de negócios de pequenos comerciantes.
E Goiás?
Em Goiás, a busca por novas fontes de renda acontece em um mercado de trabalho que também passa por transformações.
O estado combina setores tradicionais, como agropecuária e indústria, com crescimento de atividades ligadas a serviços, comércio, logística e tecnologia. Ao mesmo tempo, municípios como Goiânia, Aparecida de Goiânia e Anápolis concentram uma grande variedade de oportunidades formais e informais.
O cenário do emprego formal, entretanto, não é uniforme. Em maio de 2026, Goiás registrou saldo negativo de 2.742 vagas formais no Novo Caged, enquanto o Brasil abriu 72.960 postos de trabalho no mesmo mês.
Isso não significa que o mercado goiano esteja necessariamente encolhendo, mas mostra que os resultados podem variar significativamente conforme o mês e o setor econômico.
Ao mesmo tempo, municípios goianos continuam registrando procura por trabalhadores. Em Aparecida de Goiânia, por exemplo, o sistema municipal de emprego chegou a registrar 2.325 vagas disponíveis em uma única semana, segundo a prefeitura.
O que está por trás da renda extra?
Para alguns trabalhadores, a renda extra representa uma maneira de aproveitar algumas horas disponíveis. Para outros, é uma alternativa diante da dificuldade de encontrar uma vaga, uma estratégia de empreendedorismo ou uma forma de diversificar as fontes de renda.
A própria pesquisa do IBGE mostra que não existe uma única razão para aderir às plataformas. Flexibilidade, dificuldade de encontrar trabalho, expectativa de rendimento maior e necessidade de complementar a renda aparecem entre os principais motivos.
Ao mesmo tempo, a experiência exige atenção aos custos e à proteção social. Ganhar R$ 100 em uma atividade não significa necessariamente colocar R$ 100 no orçamento. Quando há combustível, manutenção, taxas, equipamentos ou outros gastos, o valor líquido pode ser bem menor.
Por isso, a expansão da renda extra conta uma história que vai além do dinheiro. Ela revela um trabalhador cada vez mais responsável por administrar diferentes fontes de receita — e, muitas vezes, também pelos riscos que antes estavam associados ao empregador.





